Relações parassociais: por que sentimos proximidade com famosos e influenciadores?

Você acompanha os vídeos, reconhece o jeito de falar e fica feliz quando aquela pessoa conta uma conquista. Ela aparece no seu café da manhã, no caminho para o trabalho ou na hora de descansar. Aos poucos, parece fazer parte da sua vida.

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Celular apoiado em uma mesa exibe um apresentador; ao lado, caderno, caneca e a mão de quem acompanha o vídeo.
A presença de alguém na rotina pode começar por uma tela. Cena ilustrativa.

Imagem: Imagem gerada com IA para a Revista Alma.

Você acompanha os vídeos, reconhece o jeito de falar e fica feliz quando aquela pessoa conta uma conquista. Ela aparece no seu café da manhã, no caminho para o trabalho ou na hora de descansar. Aos poucos, parece fazer parte da sua vida.

Relação parassocial é o nome dado ao vínculo que alguém desenvolve com uma figura conhecida por meio da mídia, sem uma convivência recíproca equivalente. Pode acontecer com apresentadores, artistas, personagens e pessoas acompanhadas nas redes.

O sentimento de proximidade merece ser levado a sério. Ao mesmo tempo, vale perceber o que você conhece daquela pessoa, como esse encontro acontece e qual espaço ele ocupa na sua rotina.

O que significa sentir proximidade por uma tela?

Quando alguém olha para a câmera, compartilha uma história e fala de um jeito familiar, o público pode sentir que participa de uma conversa. Essa experiência já chamava a atenção dos pesquisadores Donald Horton e Richard Wohl em 1956, ao estudarem a comunicação pelo rádio, pela televisão e pelo cinema.

Hoje, a cena também pode envolver um podcast ouvido toda semana ou uma criadora cujos vídeos você acompanha há anos. Você reconhece o humor, lembra de acontecimentos e cria expectativas sobre o próximo conteúdo.

Essa familiaridade se constrói com aquilo que chega até você. Ela não oferece acesso à vida inteira de quem aparece na tela: existe uma seleção de cenas, assuntos, silêncios e formas de apresentação.

Interação e vínculo são a mesma coisa?

Na pesquisa sobre o tema, costuma-se distinguir a experiência de interação durante um conteúdo e uma relação que continua para além dele. A diferença ajuda a entender situações comuns.

Uma situação ilustrativaO que podemos observar
Durante um vídeo, parece que o apresentador está falando diretamente com você.Uma sensação de conversa naquele momento.
Mesmo sem assistir hoje, você se lembra da pessoa, acompanha novidades e quer saber como ela está.Uma proximidade que permanece entre os conteúdos.
Você e uma amiga conversam, escutam uma à outra e acompanham acontecimentos da vida de ambas.Um vínculo com participação e reconhecimento dos dois lados.

As redes acrescentam outras possibilidades: alguém pode responder a um comentário, conversar em uma transmissão ou reconhecer um seguidor. Cada contato tem seu contexto. Uma resposta pública pode ser importante para quem a recebe, mas, sozinha, não estabelece a mesma convivência de uma amizade.

Uma cena para entender melhor

Imagine uma situação fictícia. Clara acompanha uma criadora que fala de livros. Depois de algum tempo, conhece suas preferências, se acostuma com o cenário dos vídeos e passa a esperar as conversas de domingo. Uma indicação inspira uma leitura que ela acaba comentando com amigas.

Quando a criadora anuncia uma pausa, Clara sente falta. Esse sentimento faz sentido dentro da rotina que se formou. Não precisamos concluir, por causa disso, que Clara está sozinha ou que há um problema de saúde.

A pergunta muda quando Clara começa a exigir detalhes que a outra pessoa decidiu preservar, como se acompanhar o conteúdo lhe desse direito a uma explicação sobre cada escolha íntima. Nesse ponto, vale observar a expectativa criada em torno do vínculo.

São duas questões diferentes: reconhecer que a presença de alguém tem valor para você e decidir o que essa presença permite esperar do outro.

Admirar alguém exige concordar com tudo?

Uma figura pública pode oferecer companhia, ideias e referências importantes. Também pode errar, mudar de opinião, fazer publicidade ou falar de um assunto que conhece pouco. A familiaridade não elimina a necessidade de avaliar cada informação.

Você pode gostar de uma pessoa e discordar de uma afirmação. Pode aproveitar uma indicação de livro sem adotar todas as opiniões dela. Pode deixar de acompanhar um conteúdo que já não faz sentido na sua vida.

Esse espaço de escolha ajuda a preservar a própria voz. A Alma aprofunda essa conversa em Quando a multidão fala com a nossa voz, um ensaio sobre pertencimento e vida coletiva.

Como observar o lugar desse vínculo na sua rotina

Em vez de procurar um teste para saber se sua admiração passou de um limite, comece por situações concretas. As perguntas abaixo são convites à observação, não critérios de diagnóstico:

  • O que encontro nesse conteúdo: informação, diversão, companhia, inspiração?
  • Consigo discordar e continuar pensando com meus próprios critérios?
  • Quanto tempo e dinheiro quero dedicar a essa experiência?
  • Estou respeitando a privacidade de quem acompanho?
  • Essa rotina cabe junto das conversas, atividades e responsabilidades que considero importantes?

Talvez você perceba que acompanhar alguém enriquece suas leituras ou rende boas conversas. Talvez note que está abrindo o aplicativo automaticamente, mesmo quando preferia fazer outra coisa. A observação permite escolher um ajuste ligado ao que está acontecendo: mudar um horário, rever uma assinatura ou deixar algumas notificações desligadas.

Esses gestos não precisam funcionar como punição por gostar de alguém. Podem apenas ajudar a dar a esse encontro um lugar que faça sentido para você.

O afeto pode existir junto da percepção dos limites

Há músicas que nos acompanham por décadas e pessoas que nunca encontramos, mas cujas palavras marcaram momentos da nossa vida. Entender a relação parassocial não obriga a diminuir essa importância.

O conceito oferece uma pergunta útil: que tipo de proximidade está sendo construída aqui? A resposta ajuda a apreciar o que recebemos, cuidar das expectativas e lembrar que conhecer uma presença pública é diferente de participar da vida inteira de alguém.

Você pode se emocionar com um vídeo, guardar uma frase e esperar o próximo episódio. Também pode preservar o direito de fazer uma pausa, mudar de ideia e continuar construindo vínculos nos quais sua história seja ouvida de volta.