Quando a multidão fala com a nossa voz

Jung, individuação e redes sociais: como a conformidade digital pode transformar desejos e opiniões prontas em uma voz que parece nossa.

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Passageiros em vagão de metrô olham para celulares, enquanto um homem de costas observa a cidade pela janela à noite.
Em meio às telas, o gesto de olhar para fora sugere uma pausa diante dos automatismos cotidianos. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Jung se preocupou com o indivíduo engolido por forças coletivas. Na era do feed, a pergunta ganha outra intimidade: como perceber quando desejos, opiniões e modos de viver já chegaram prontos até nós?

Em 1959, Carl Gustav Jung recebeu o jornalista John Freeman em sua casa, em Küsnacht, à beira do lago de Zurique, para uma entrevista da BBC. Jung tinha 84 anos. Fumava cachimbo, respondia sem pressa e carregava no rosto aquela expressão rara de quem não confunde velocidade com pensamento.

A entrevista ficou conhecida pela resposta que deu sobre Deus. Mas há outra preocupação, menos citada, que atravessa sua fala e seus escritos daquele período: o risco de o indivíduo desaparecer dentro de forças coletivas grandes demais para ele — organizações, ideologias, hábitos, medos, consensos. Em Presente e futuro, publicado dois anos antes, Jung se inquietava com a facilidade com que uma pessoa pode passar a se perceber como peça, número, função.

Hoje, essa inquietação mudou de roupa. A multidão não precisa estar reunida numa praça, sob uma bandeira ou diante de um líder. Ela cabe no bolso. Acorda antes de nós, escolhe o que veremos primeiro, sugere uma estética para a nossa casa, uma linguagem para nossa indignação, um corpo desejável, uma maneira aceitável de sofrer e até uma trilha sonora para parecer que estamos vivendo.

O que assusta não é apenas a influência. Ninguém vive fora dela. O que assusta é o momento em que ela deixa de parecer influência e passa a falar com a nossa voz.

A multidão aprendeu a ser íntima

A imagem clássica da massa é barulhenta: gente comprimida, palavras de ordem, uniformes, euforia e obediência visível. O século XX nos deixou alertas para esse tipo de reunião. Freud, em Psicologia das massas e análise do eu, examinou como os laços identificatórios podem alterar o julgamento individual; Hannah Arendt se deteve, em outro registro, sobre a aterradora ausência de pensamento que pode acompanhar a obediência burocrática. Erich Fromm escreveu sobre o alívio ambíguo de escapar da liberdade por meio da conformidade.

Nenhum deles conheceu o feed. Ainda assim, a pergunta permanece reconhecível: por que tantas vezes entregamos tão facilmente aquilo que deveria nos caber — o julgamento, o desejo, a responsabilidade de escolher?

A forma contemporânea dessa entrega é menos teatral. Ninguém precisa mandar que você queira o restaurante do momento, o rosto do momento, a viagem do momento. Basta fazer com que essas imagens apareçam repetidamente, acompanhadas da sensação de que todo mundo já chegou lá. A repetição não obriga; ela familiariza. E o que se torna familiar ganha a aparência tranquila do natural.

É por isso que a cultura digital não produz apenas imitação. Ela produz uma espécie de antecipação. Antes que uma vontade tenha tempo de amadurecer, já há um modelo disponível para ela. Antes que o tédio se revele como tédio, surge uma compra. Antes que uma tristeza encontre palavras, surge uma explicação pronta, uma estética da vulnerabilidade, um vídeo de trinta segundos prometendo traduzir a vida inteira.

Há algo de confortável nisso. Escolher dá trabalho. Sustentar uma preferência quando ela não é validada, mais ainda. A multidão contemporânea não se impõe somente pelo medo de ficar de fora; ela também oferece repertório, pertencimento e descanso. Ela poupa o esforço de perguntar: eu quero mesmo isso ou apenas aprendi a reconhecer isso como desejável?

Uma vida pode funcionar muito bem e ainda assim não parecer sua

Ilustração de perfil humano em azul sobreposto por fragmentos de rostos, setas e símbolos de notificações.
Entre os papéis sociais e os estímulos constantes, a pergunta pelo que ainda é vivido como próprio permanece aberta. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

O automático não costuma chegar como catástrofe. Ele se instala nos gestos eficientes: olhar o celular antes de olhar o teto; responder “tudo bem” antes de escutar a pergunta; ter uma opinião pronta sobre algo que acabou de acontecer; transformar cada experiência numa possibilidade de registro antes que ela se torne experiência.

E há um automático mais sofisticado: o de administrar a própria imagem com tamanha competência que já não se sabe onde termina a pessoa e começa a apresentação.

Jung chamou de persona a face social pela qual nos relacionamos com o mundo. Não se trata de uma mentira que deveria ser arrancada de nós. Toda vida coletiva exige papéis: somos profissionais, amigos, filhos, parceiros, cidadãos; aprendemos códigos, modulamos a fala, ocupamos lugares. Uma persona é necessária. O problema aparece quando ela deixa de ser uma forma de relação e vira a única forma possível de existir.

Donald Winnicott, por outra via teórica, formulou a noção de falso self para pensar organizações psíquicas marcadas por adaptação excessiva. Não é sinônimo de persona, nem uma versão clínica dela. Mas as duas lentes se aproximam numa experiência que muitas pessoas reconhecem: a de desempenhar tão bem o que é esperado que o próprio gesto espontâneo se torne difícil de alcançar.

Alguém pode ser admirado, produtivo, agradável, impecável. Pode cumprir todas as tarefas que a vida pediu. E, ainda assim, sentir uma espécie de irrealidade íntima — como se a existência estivesse organizada por fora, enquanto por dentro faltasse alguém para habitá-la.

Essa sensação não prova, por si só, uma teoria nem autoriza transformar qualquer incômodo em diagnóstico. Mas merece ser escutada. Nem todo vazio é falta de produtividade. Nem toda exaustão pede uma técnica de otimização. Às vezes, o que cansa é sustentar uma vida que se tornou excessivamente legível para os outros e pouco inteligível para si.

Na leitura da Revista Alma, o risco maior não é sermos influenciados, mas nos acostumarmos tanto à influência que deixemos de reconhecer quando ela passou a escolher em nosso lugar.

A individuação não é uma marca pessoal

É aqui que a individuação, conceito central da psicologia junguiana, volta a ter urgência. A palavra pode soar distante, quase empoeirada, num tempo que transformou singularidade em slogan. Mas individuar-se, para Jung, não é fabricar uma identidade original para exibir. Não é ser diferente a qualquer custo. Tampouco é abandonar os vínculos, a sociedade ou a cultura em nome de uma suposta pureza interior.

Trata-se de um processo de tornar-se mais inteiro: reconhecer os papéis que exercemos sem nos reduzir a eles; perceber contradições; admitir aspectos recusados; encontrar uma relação menos automática entre aquilo que o mundo espera e aquilo que, de fato, nos move.

Isso inclui a sombra — termo que Jung usou para se referir, em parte, aos aspectos de nós mesmos que evitamos reconhecer. A sombra não é um compartimento de maldade cinematográfica. Pode conter agressividade, sim, mas também ambição, limite, desejo, inteligência, raiva justa, necessidade de repouso. Tudo aquilo que uma pessoa aprendeu a considerar inadequado para permanecer amável, desejável, útil ou pertencente.

Quando não reconhecemos esses elementos, eles não desaparecem. Podem voltar como projeção: a certeza furiosa de que o problema está sempre no outro, no grupo rival, no tipo humano que elegemos como inimigo. A massa prospera nesse terreno. Poucas coisas criam mais coesão do que um alvo no qual depositar aquilo que não suportamos ver em nós.

A individuação não promete paz permanente. Ela cobra responsabilidade. Exige que a pessoa pare de usar o coletivo como desculpa completa para a própria vida — sem negar, evidentemente, que existem desigualdades, violências e limites materiais reais. Há forças que nos atravessam e nos condicionam. Mas reconhecer condicionamentos não precisa significar tornar-se inteiramente conduzido por eles.

Não foi uma queda: foi uma aceleração

Talvez seja tentador imaginar que houve um tempo em que todos sabiam quem eram, gostavam livremente do que gostavam e viviam sem imitar ninguém. Não houve. Moda, prestígio, propaganda, autoridade, medo da exclusão: tudo isso é antigo. Jung, Freud e Fromm estavam preocupados com formas de conformismo muito antes de existir uma tela capaz de acompanhar nossos dedos durante o café da manhã.

O que mudou foi a escala, a velocidade e a proximidade da mediação. A cultura já não espera a praça, o jornal de domingo ou a conversa no trabalho para nos alcançar. Ela ocupa os intervalos. Entra no instante entre uma sensação e a tentativa de compreendê-la. Mede o que nos prende, aprende nossas reações e devolve versões cada vez mais atraentes do que supostamente já somos.

Byung-Chul Han descreveu uma forma contemporânea de exploração em que o sujeito se percebe como agente de si mesmo, mesmo quando se cobra e se esgota sem descanso. A formulação ajuda a nomear um paradoxo: hoje podemos nos sentir livres justamente enquanto obedecemos a imperativos que assumimos como projeto pessoal. Produza. Apareça. Melhore. Seja interessante. Seja desejável. Seja você — desde que esse “você” seja visível, consumível e reconhecível.

A crítica não é ao uso das redes, nem à moda, nem ao prazer de pertencer. É à substituição silenciosa da experiência pelo roteiro. Pertencer é uma necessidade humana; ninguém amadurece fora do mundo. Dissolver-se, porém, é outra coisa.

Quem está vivendo quando tudo parece em ordem?

Há uma frase que muitas pessoas dizem sem perceber sua estranheza: “Minha vida está boa, não sei por que não estou feliz.” Às vezes, ela descreve uma dor concreta, um luto, uma depressão, uma condição que pede escuta clínica e cuidado. Em outras, ela aponta para uma pergunta menos nomeada: de quem é essa vida que está dando certo?

A agenda está cheia. Os boletos foram pagos. As mensagens receberam resposta. O corpo aparece nas fotos. As escolhas parecem razoáveis. Mas talvez a pessoa tenha se tornado tão hábil em corresponder que já não consiga distinguir o que deseja do que aprendeu a desejar.

Não existe resposta rápida para isso — e talvez desconfie de toda resposta que se apresente rápida demais. A individuação não é uma lista de hábitos, uma estética da autenticidade ou um retiro de fim de semana. Ela começa, muitas vezes, num ponto pouco espetacular: a disposição de interromper uma certeza conveniente. De não chamar imediatamente de gosto aquilo que ainda não foi examinado. De escutar uma irritação antes de transformá-la em postagem. De suportar algum silêncio sem preenchê-lo com a próxima recomendação.

Em 1959, Jung falava de uma ameaça de anulação do indivíduo em meio a forças coletivas. A nossa época não resolveu essa ameaça; tornou-a mais personalizada. A multidão aprendeu nossos nomes, nossas preferências e nossos horários. Talvez por isso seja tão difícil percebê-la.

Ela não grita de fora. Muitas vezes, fala de dentro — com a nossa própria voz.

Referências bibliográficas e documentais

JUNG, Carl Gustav. Entrevista a John Freeman. Face to Face. BBC, exibida em 22 de outubro de 1959. Registro audiovisual na Association of Jungian Analysts. Transcrição consultada, especialmente o diálogo final.

JUNG, Carl Gustav. The Undiscovered Self. Routledge Classics, 2002. Original alemão: Gegenwart und Zukunft, 1957; primeira edição inglesa, 1958. Consulta aos trechos sobre indivíduo, conhecimento estatístico e sociedade de massa. Texto consultado.

FREUD, Sigmund. Group Psychology and the Analysis of the Ego. Tradução de James Strachey. Londres e Viena: The International Psycho-Analytical Press, 1922. Original alemão publicado em 1921. Consulta aos trechos sobre identificação e vínculos grupais. Texto no Project Gutenberg.

JUNG, Carl Gustav. “The Relations between the Ego and the Unconscious”. In: CAMPBELL, Joseph (org.). The Portable Jung. Consulta ao trecho sobre individuação e sua distinção do individualismo. Reprodução consultada.

INTERNATIONAL ASSOCIATION OF ANALYTICAL PSYCHOLOGY. Persona. Consulta à apresentação do conceito e de sua relação com os papéis sociais. Artigo consultado.

JUNG, Carl Gustav. Aion: Researches into the Phenomenology of the Self. Tradução de R. F. C. Hull. Nova York: Pantheon Books, 1959. Collected Works, v. 9, parte II. Capítulo II, “The Shadow”, especialmente §§13–17. Reprodução do texto consultado.

WINNICOTT, Donald Woods. “The Concept of the False Self”. In: CALDWELL, Lesley; ROBINSON, Helen Taylor (orgs.). The Collected Works of D. W. Winnicott: Volume 7, 1964–1966. Oxford University Press, 2016, p. 27–32. Consulta ao resumo editorial. DOI.