Os Enamorados e o encontro com o outro dentro de si

Uma leitura junguiana de Os Enamorados no tarô de Waite-Smith: paixão, idealização, sombra, desejo e a difícil arte de amar o outro real.

Publicado em 23 de setembro de 2026
Ilustração editorial de duas pessoas sentadas de costas uma para a outra diante de uma montanha e do sol, entre árvores com serpente e chamas.
Amar também é aprender a sustentar a distância que torna o encontro possível. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Uma leitura junguiana do sexto arcano do tarô de Waite-Smith sobre paixão, projeção e o difícil aprendizado de amar alguém que não cabe em nossas fantasias.

Há um instante, no começo de quase toda paixão, em que acreditamos estar vendo alguém pela primeira vez. O rosto parece novo, a voz parece inevitável, os gestos mais banais ganham uma espécie de destino. Mas talvez o encantamento não comece apenas no encontro com uma pessoa desconhecida. Talvez comece quando algo antigo, ainda sem nome dentro de nós, reconhece uma forma possível de aparecer.

Os Enamorados, sexto arcano maior do tarô de Waite-Smith, costuma ser reduzido a uma carta de romance, compatibilidade ou escolha amorosa. Sua imagem, porém, resiste a essa simplificação: um homem e uma mulher nus; um anjo acima deles; duas árvores; uma serpente; uma montanha; uma luz que não permite muitos esconderijos. A carta fala de vínculo, certamente — mas também fala daquilo que o vínculo revela, desloca e põe em risco.

Uma leitura a partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung pode tornar essa cena ainda mais incômoda. Não porque Jung tenha deixado uma interpretação específica de Os Enamorados do baralho de Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith — não deixou —, mas porque seus conceitos oferecem uma linguagem para pensar um dos acontecimentos mais intensos da vida amorosa: a tendência de encontrar no outro conteúdos que ainda não conseguimos reconhecer como nossos.

Síntese autoral: apaixonar-se pode ser menos a descoberta de uma pessoa pronta para nos completar do que o abalo produzido por uma parte nossa que, de repente, encontra um rosto onde se projetar.

A nudez e o risco de ser visto

A primeira força da carta é a nudez. As figuras não trazem coroas, armaduras, títulos ou vestimentas que as protejam do olhar. Não é uma nudez inocente, tampouco apenas erótica. É uma nudez psíquica: a precariedade de aparecer diante de alguém sem conseguir controlar inteiramente a impressão que se causa.

Queremos ser amados, mas nem sempre queremos ser vistos. Frequentemente, oferecemos ao outro uma versão editada de nós mesmos: a pessoa generosa, desejável, espirituosa, forte, autossuficiente. A paixão inicialmente colabora com essa encenação. Ela seleciona luzes, perdoa contradições, transforma lacunas em mistério. Durante algum tempo, parece possível amar e ser amado sem que a fragilidade, o ciúme, a necessidade, a raiva ou o medo atravessem a cena.

Mas nenhum vínculo vivo permanece para sempre no território da apresentação. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que foi cuidadosamente afastado volta a pedir lugar. E talvez seja então que a carta comece a falar com mais precisão: amar não é apenas encontrar quem nos deseja; é suportar que alguém veja também aquilo que não sabemos como tornar desejável.

O outro como tela — e como limite

Rosto de uma mulher parcialmente refletido em espelho antigo, com folhas e fogo desfocados ao fundo.
A idealização começa quando o outro é convocado a refletir uma imagem que ainda não reconhecemos como nossa. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Jung chamou de projeção o movimento pelo qual atribuímos a outra pessoa conteúdos, imagens e afetos que pertencem, ao menos em parte, à nossa própria vida psíquica. No amor, isso pode produzir a sensação vertiginosa de ter encontrado alguém excepcional: não necessariamente porque a pessoa real seja aquilo que imaginamos, mas porque ela passou a carregar uma promessa íntima.

Ela parece encarnar a coragem que nos falta, a liberdade que reprimimos, a ternura que não nos permitimos pedir, a inteligência que desejamos possuir, a vida que supomos ter perdido. O amado se torna mais do que alguém: converte-se em uma resposta.

Essa é uma das razões pelas quais o início de uma paixão pode ser tão luminoso e tão vulnerável à decepção. Não basta que a pessoa exista; espera-se que ela sustente uma imagem interior que nunca escolheu representar. Quando ela falha — porque inevitavelmente falhará —, podemos sentir que fomos enganados. Às vezes, porém, o que se rompe não é uma promessa feita pelo outro. É a fantasia que nós mesmos colocamos sobre ele.

Na linguagem junguiana clássica, anima e animus nomeiam imagens inconscientes que podem ser projetadas em relações amorosas. Esses conceitos nasceram numa formulação marcada pela divisão entre masculino e feminino e precisam ser lidos hoje com contexto crítico: não como uma regra sobre identidades ou orientações afetivas, mas como uma tentativa histórica de descrever a alteridade psíquica, aquilo que cada sujeito experimenta como estranho, complementar ou ainda não integrado em si.

Lida dessa forma, a carta não diz que homens e mulheres ocupam papéis psíquicos fixos. Ela permite perguntar: o que, em mim, estou pedindo que esta pessoa viva por mim?

Síntese autoral: idealizar não é amar demais. É, muitas vezes, ainda não conseguir distinguir com nitidez onde termina o outro e onde começa a nossa própria fome de sentido.

A serpente: desejo, conhecimento e sombra

Atrás da figura feminina está a árvore associada ao relato bíblico do conhecimento, com a serpente enrolada em seu tronco. No baralho de Waite-Smith, a imagem evoca o Éden; mas seu simbolismo não se esgota numa moral simples sobre queda ou culpa.

A serpente é ambígua. Pode sugerir tentação, mas também inteligência instintiva; perigo, mas também transformação; desejo, mas também conhecimento. Há experiências depois das quais não voltamos à inocência anterior. Conhecer o próprio desejo é uma delas. Perceber que não somos completos, coerentes ou inteiramente senhores de nossas escolhas é outra.

Numa aproximação com Jung, a serpente pode ser lida como uma imagem possível da sombra: não uma entidade maligna, mas o conjunto de traços, afetos e impulsos que o ego prefere não admitir como seus. No amor, a sombra costuma se manifestar com pouca elegância. Ela chega como ciúme que nos envergonha, necessidade de controle, medo de abandono, prazer em punir, vontade de ser indispensável, ressentimento por não ocupar o centro da vida do outro.

Nada disso precisa definir uma relação. Mas negar esses movimentos não os torna menos ativos. O que não reconhecemos em nós mesmos frequentemente retorna como acusação: “você me faz sentir assim”, “você é o problema”, “você precisa mudar para que eu fique em paz”. Às vezes, o parceiro de fato age de forma violenta, manipuladora ou desrespeitosa — e nenhuma leitura simbólica deve apagar a realidade concreta de uma relação. Outras vezes, porém, estamos diante de uma ferida antiga que encontrou no presente uma ocasião para falar.

A tarefa não é transformar toda dor em material de autoconhecimento e, assim, absolver o que é inaceitável. A tarefa é mais difícil: discernir o que pertence à realidade do vínculo, o que pertence à nossa história e o que se produz justamente no atrito entre ambos.

O fogo, o eros e aquilo que move

Atrás da figura masculina, a árvore traz doze chamas. Em leituras recorrentes do arcano, elas são associadas ao zodíaco e a uma ideia de totalidade cíclica. Não é preciso tratá-las como um código fechado para sentir sua força: há fogo na imagem. Há energia. Há aquilo que nos põe em movimento em direção ao que desejamos e, às vezes, em direção ao que tememos.

Freud empregou o termo Eros para designar forças de ligação, conservação e composição da vida psíquica, em tensão com forças de destruição e desligamento. Já Jung ampliou a noção de libido para além da sexualidade, entendendo-a como energia psíquica em sentido mais abrangente. As duas formulações não são idênticas; aproximá-las aqui é uma escolha interpretativa, não uma equivalência teórica.

O que a carta parece sustentar visualmente é que não há amor sem uma força que desloca. Desejo não é apenas apetite sexual. Pode ser curiosidade, admiração, impulso de proximidade, vontade de criar uma vida compartilhada. Mas ele também pode se tornar exigência, posse e desespero quando recebe a missão impossível de curar tudo o que nos falta.

Síntese autoral: o desejo amadurece quando deixa de exigir que o outro seja remédio para uma falta sem fim e passa a aceitar que todo encontro verdadeiro conserva uma zona de mistério.

A montanha entre dois mundos

Duas trilhas de terra seguem lado a lado em uma encosta montanhosa ao amanhecer, entre rochas, vegetação e nuvens baixas.
Intimidade não exige fusão: cada pessoa preserva uma geografia interior. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Ao fundo, uma montanha se ergue entre as figuras. Ela não destrói a possibilidade de encontro; apenas impede a fantasia de fusão total. Há uma distância irredutível entre duas pessoas, mesmo quando elas dormem na mesma cama, compartilham uma casa ou conhecem as histórias uma da outra de cor.

Essa distância pode assustar. Muitas relações sofrem porque confundem intimidade com acesso ilimitado. Amar passa a significar saber tudo, concordar com tudo, estar disponível sempre, não ter território próprio. Quando isso não acontece, surge a suspeita: se o outro é diferente de mim, talvez não me ame o suficiente.

Mas a diferença não é uma falha do vínculo. É sua condição. Na perspectiva junguiana, individuação é o nome do processo pelo qual uma pessoa se torna mais capaz de responder pela própria vida psíquica, em vez de dissolver-se nas expectativas coletivas ou nas imagens que os outros projetam sobre ela. Uma relação não precisa interromper esse processo. Idealmente, ela pode confrontá-lo, aprofundá-lo e torná-lo mais honesto.

Não se trata de uma defesa fria da autossuficiência. Ninguém se faz sozinho, e a vulnerabilidade diante do outro não é sinal de fracasso. Trata-se de recusar uma ideia romântica que cobra um preço alto: a de que amar é deixar de ser alguém separado.

Talvez a pergunta decisiva não seja “somos um só?”, mas “podemos permanecer dois sem transformar a diferença numa ameaça?”

Quando a projeção recua

Há uma tristeza particular no momento em que a idealização começa a cair. O outro deixa de ser a figura extraordinária que parecia responder a todas as nossas faltas. Torna-se alguém comum em aspectos que não esperávamos: limitado, contraditório, por vezes cansativo, por vezes incapaz de nos oferecer aquilo que desejamos.

Esse pode ser o fim de uma fantasia. Não precisa ser o fim do amor.

Para Jung, retirar projeções é parte de um trabalho de consciência. Não significa parar de se encantar, tornar-se cínico ou reduzir relações a mecanismos psicológicos. Significa devolver ao outro sua condição de pessoa: alguém que não existe para confirmar nossa narrativa íntima, alguém que pode nos frustrar sem ter cometido uma traição contra a imagem que inventamos.

Essa retirada é dolorosa porque exige luto. É preciso perder a ideia de um resgate perfeito, de uma completude garantida, de um encontro capaz de corrigir retrospectivamente todas as faltas. Mas é também uma abertura. Quando o outro deixa de ser uma tela, pode finalmente aparecer.

E nós também.

A luz dourada de Os Enamorados não parece suave. Ela tem algo de implacável. Ilumina a beleza do encontro, mas ilumina igualmente a sedução da fantasia, a sombra que se infiltra no desejo e a distância que nenhuma promessa elimina. A carta não oferece uma fórmula para escolher a pessoa certa. Oferece uma pergunta mais funda e menos confortável:

quando você olha para quem ama, consegue reconhecer uma pessoa real — complexa, separada, irrepetível — ou ainda procura um espelho que devolva a parte de si que você não consegue encontrar sozinho?

O amor talvez comece quando deixamos de pedir ao outro que nos complete. Não porque sejamos completos ou porque não precisemos de ninguém, mas porque entendemos que uma relação não é resgate. É presença. É risco. É a decisão renovada de permanecer diante de alguém real depois que o paraíso da fantasia ficou para trás.

Nota de leitura

Este artigo realiza uma interpretação autoral dos símbolos de Os Enamorados no tarô de Waite-Smith em diálogo com conceitos da psicologia analítica e, pontualmente, da psicanálise freudiana. Não apresenta uma análise de Jung sobre essa carta específica, nem propõe o tarô como instrumento clínico ou científico. As associações entre elementos visuais, mitos e conceitos psicológicos são caminhos de leitura simbólica, não diagnósticos ou verdades universais sobre os vínculos.

Referências bibliográficas e documentais

Bibliografia e materiais de consulta

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917–1920). Obras completas, v. 14. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 161–239.

JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, O.S.B. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. (Obras completas de C. G. Jung, v. 9/2).

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. (Obras completas de C. G. Jung, v. 7/2).

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luiza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. 11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. (Obras completas de C. G. Jung, v. 9/1).

JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Tradução de Maria Luiza Appy. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. (Obras completas de C. G. Jung, v. 16/1).

JUNG, Carl Gustav et al. O homem e seus símbolos. Tradução de Maria Lúcia Pinho. 2. ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

VON FRANZ, Marie-Louise. A individuação nos contos de fada. Tradução de Eunice Katunda. São Paulo: Paulus, 1984. (Coleção Amor e Psique).

VON FRANZ, Marie-Louise. Individuation in Fairy Tales. Rev. ed. Boston: Shambhala, 1990.

NICHOLS, Sallie. Jung e o tarô: uma jornada arquetípica. Introdução de Laurens van der Post. Tradução de Octavio Mendes Cajado. 12. reimpr. da 1. ed. São Paulo: Cultrix, 2007.

NICHOLS, Sallie. Jung and Tarot: An Archetypal Journey. York Beach, ME: Samuel Weiser, 1980.