O nono arcano do Rider-Waite-Smith oferece uma pergunta menos confortável do que a ideia de “sabedoria”: quando a solidão elabora a vida — e quando ela se torna uma defesa contra ela?
Há uma frase que costuma aparecer depois de um período difícil: “preciso ficar um tempo sozinho”. Às vezes ela anuncia um gesto necessário. A pessoa diminui o ruído, interrompe uma rotina que a exauria, volta a escutar coisas que havia deixado de ouvir em si.
Outras vezes, dois meses passam. A pessoa continua sozinha, mas agora com uma certeza mais organizada de que ninguém a entende, de que toda convivência é superficial, de que o problema está sempre lá embaixo — na cidade, na família, nos amigos, no mundo.
O recolhimento virou argumento.
É nessa faixa estreita, entre uma pausa que elabora a vida e um afastamento que se protege dela, que o Eremita do Rider-Waite-Smith se torna uma carta menos pacífica do que parece. Desenhado por Pamela Colman Smith para o baralho publicado por Arthur Edward Waite em 1909, o nono arcano costuma receber uma tradução rápida: sabedoria, introspecção, busca interior. A imagem, no entanto, não oferece conforto tão facilmente.
Um homem no frio
O velho de capuz cinzento está só no alto de uma montanha nevada. Não há caminho visível atrás dele, nem cidade, nem companhia. Em uma mão, uma lanterna; na outra, um cajado. Dentro da lanterna, uma estrela de seis pontas.
A economia da cena é quase dura. Nada cresce naquele chão, nada pede resposta, ninguém interrompe o pensamento do homem. É possível ler nisso uma condição de escuta. Também é possível reconhecer a sedução de um lugar onde nada nos contraria.
O manto não é preto, como se a imagem quisesse declarar um luto; tampouco é branco, como se prometesse iluminação. É cinza: uma cor de passagem, de algo que ainda está sendo atravessado. A aproximação com Freud não está no desenho como prova, mas na pergunta que ele ajuda a formular. Em Luto e melancolia, Freud investiga modos muito diferentes de viver uma perda. Há um trabalho psíquico que, embora doloroso, permite que a vida se reorganize; há também um aprisionamento em que a perda parece recair sobre o próprio eu.
Na minha leitura, o Eremita habita justamente o instante em que ainda não sabemos qual desses movimentos está em curso. Estar só pode ser uma forma de elaborar. Pode ser também uma maneira de não se expor àquilo que os vínculos devolvem: limite, diferença, frustração, desejo alheio.
A luz não ilumina a montanha inteira

O Eremita não ergue a lanterna para dominar a paisagem. Ela ilumina pouco: o chão próximo, talvez um ou dois passos. Esse detalhe desloca a fantasia de uma sabedoria total. A carta não mostra alguém que chegou ao fim do enigma; mostra alguém capaz de caminhar sem transformar a escuridão em motivo de pânico.
Lacan insistiu que o sujeito não é transparente para si mesmo. Há sempre uma parte do que nos move que escapa ao nosso domínio e à narrativa que fazemos sobre nós. A lanterna pode ser lida, então, como uma imagem desse saber limitado: há luz, mas ela existe em relação ao escuro que permanece.
Isso importa porque o isolamento facilmente se disfarça de clareza. Depois de uma decepção, é tentador concluir que se aprendeu demais sobre as pessoas; depois de uma relação dolorosa, supor que qualquer necessidade de companhia é fraqueza. A lanterna do Eremita não autoriza esse veredito. Ela pede atenção ao próximo passo, não uma teoria definitiva sobre o mundo.
Síntese autoral: há recolhimentos que nos devolvem à vida; outros apenas nos dão uma vista privilegiada para desprezá-la.
A estrela e o risco de virar o sábio
Waite associa a estrela de seis pontas da lanterna ao selo de Salomão. Em leituras junguianas do arcano, como a de Sallie Nichols, essa imagem pode aproximar-se da união dos opostos: alto e baixo, consciência e inconsciente, aquilo que sabemos de nós e aquilo que ainda resiste a ganhar forma.
Essa é uma leitura simbólica, não uma explicação científica da carta. Sua força está em tornar visível uma tensão real: amadurecer não é expulsar de si a contradição, mas sustentar a conversa entre partes que prefeririam não se encontrar.
Jung deu centralidade à figura do velho sábio como imagem arquetípica de orientação. Mas o arquétipo tem uma armadilha conhecida por quem se interessa por símbolos: identificar-se demais com ele. Quando alguém passa a ocupar o lugar de quem vê mais fundo, entende mais cedo, está acima do tumulto, a sabedoria deixa de ser busca e vira personagem.
O homem da montanha ganha um prestígio peculiar. Ninguém discute facilmente com quem se retirou do mundo em nome da verdade. A recusa dos vínculos pode parecer lucidez; a dificuldade de ser alcançado, autonomia; a incapacidade de ouvir, discernimento. É uma inflação possível: a experiência interior, em vez de tornar alguém mais permeável ao real, passa a protegê-lo de qualquer encontro que possa deslocá-lo.
O cajado oferece uma imagem mais sóbria. Ele sustenta o passo, mas não substitui o caminho. Tradição, leitura, terapia, religião, estudo e memória podem servir de apoio. Nenhum deles enxerga por nós — e nenhum deveria virar uma credencial para deixar de olhar.
Estar só não é estar abandonado
Winnicott acrescenta uma distinção que torna a carta ainda mais humana. Para ele, a capacidade de estar só é uma conquista emocional e nasce, paradoxalmente, da experiência de estar só na presença confiável de alguém. A criança pode brincar consigo mesma porque há um outro que não invade, mas também não desaparece.
Essa ideia ajuda a separar duas experiências que, vistas de fora, têm aparência semelhante. Há quem se recolha e conserve dentro de si uma espécie de companhia: a lembrança de vínculos suficientemente bons, a possibilidade de pedir ajuda, a confiança de que poderá voltar. E há quem se isole porque toda proximidade parece ameaçadora, humilhante ou impossível.
Um homem, uma montanha, uma luz. A imagem pode conter as duas coisas.
Por isso, o Eremita não deveria ser lido como elogio automático da solidão. Ele não condena o afastamento, tampouco o santifica. A carta parece perguntar o que está sendo protegido quando se fecha uma porta — e o que está sendo preparado quando se acende uma lanterna.
Para que serve a sua luz?
Quando o Eremita aparece numa leitura, a questão não precisa ser “devo me afastar?”. Muitas vezes, afastar-se por um tempo é a única maneira de recuperar alguma escuta. A pergunta mais difícil é outra: o que esse afastamento produz em você?
Ele devolve delicadeza para os encontros ou confirma uma superioridade amarga? Ajuda a nomear uma dor ou apenas oferece um cenário onde ela não será contrariada? A luz serve para encontrar o próprio caminho e, de passagem, tornar o caminho um pouco mais visível para quem vem atrás? Ou serve apenas para provar que a cidade, vista do alto, parece escura?
O Eremita permanece na neve. Mas sua lanterna não foi feita para substituir o mundo.
Referências bibliográficas e documentais
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914) e Luto e melancolia (1917 [1915]). In: Obras completas, vol. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obra completa, vol. 9/1. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. O livro vermelho = Liber novus: edição sem ilustrações. Organização de Sonu Shamdasani. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Organização de Aniela Jaffé; tradução de Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
NICHOLS, Sallie. Tarot and the archetypal journey: the Jungian path from darkness to light. Prefácio de Mary K. Greer. Ed. revista. Weiser Books, 2019. (Publicado originalmente em 1980 como Jung and Tarot: an archetypal journey.)
WAITE, Arthur Edward. The pictorial key to the tarot. 1. ed. Londres: William Rider & Son, 1910 (folha de rosto datada de 1911). Baralho ilustrado por Pamela Colman Smith, publicado em dezembro de 1909.
WINNICOTT, Donald W. A capacidade para estar só (1958). In: O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. (Original: Londres: Hogarth Press, 1965.)


