Em A História Sem Fim, Bastian não encontra na fantasia uma negação da realidade, mas imagens para uma dor que ainda não recebeu companhia. O filme ajuda a pensar por que contos e narrativas simbólicas podem oferecer às crianças uma linguagem para sentir.
Antes que Fantasia comece a desaparecer, alguma coisa já parece ter desaparecido na casa de Bastian Bux: a possibilidade de sofrer acompanhado.
Ele é um menino acuado pelos colegas, enlutado pela morte da mãe e pouco compreendido pelo pai. Corre sob a chuva, entra numa livraria, leva consigo um livro que lhe foi proibido e se esconde no sótão da escola. Ali, diante de A História Sem Fim (1984), não escapa simplesmente do mundo. Procura uma forma de permanecer nele quando o mundo ficou difícil demais de habitar.
Essa é uma das razões pelas quais os contos de fadas, os mitos e as narrativas fantásticas continuam importando para crianças — e para os adultos que cuidam delas. Eles não resolvem uma perda, não substituem escuta, proteção ou acompanhamento clínico quando necessário. Mas podem oferecer imagens, personagens e enredos para aquilo que ainda não encontrou palavras.
Em vez de perguntar se a fantasia afasta a criança da realidade, talvez valha perguntar: que realidade ainda não pôde ser dita diretamente?
A casa onde a tristeza não encontra endereço
A morte da mãe de Bastian é mencionada quase de passagem. No café da manhã, o pai pede que ele pare de sonhar, mantenha os pés no chão e encare a realidade. Não há, no entanto, muito espaço para saber como se encara uma realidade depois que alguém amado morre.
O pai não precisa ser transformado em vilão para que sua limitação doa. Ele parece amar o filho; parece também não conseguir permanecer junto dele diante da perda. Protege-se nas tarefas, nas cobranças, na linguagem prática da escola e das obrigações. Bastian se protege como pode: lendo, imaginando, desaparecendo para dentro de uma história.
Síntese autoral: quando uma tristeza não encontra acolhimento no cotidiano, ela não deixa de existir. Muitas vezes, muda de língua.
Em A História Sem Fim, essa outra língua se chama Fantasia. O reino está sendo devorado pelo Nada, uma ameaça sem rosto, sem plano explícito, sem a forma confortável de um inimigo que se pode derrotar com uma espada. Ele cresce onde a esperança, o desejo e a capacidade de imaginar parecem enfraquecer.
Não se trata de afirmar que o filme “explica” clinicamente o luto de Bastian. Trata-se de reconhecer que a fantasia oferece uma representação possível para uma experiência que, para uma criança, pode ser grande demais, confusa demais, solitária demais: a sensação de que algo essencial desapareceu e levou consigo parte do mundo.
Por que os contos ajudam
Bruno Bettelheim defendeu que os contos de fadas falam, por meio de símbolos, de conflitos que a criança ainda não consegue formular de maneira abstrata. Essa é uma perspectiva psicanalítica, situada em seu tempo e debatida por diferentes correntes; não é uma receita universal de leitura. Ainda assim, ela ilumina algo importante: uma narrativa pode permitir que a criança se aproxime de medos, rivalidades, perdas e desejos sem precisar nomeá-los de imediato como “meus”.
A bruxa, a floresta, o gigante, a criança perdida, o reino ameaçado: nada disso precisa ser traduzido numa equivalência rígida. O símbolo não funciona como uma charada com resposta única. Sua força está justamente em acolher sentidos diferentes para pessoas diferentes, em momentos diferentes.
Bastian não precisa dizer: “estou devastado pela morte da minha mãe e não sei como viver com um pai que também sofre, mas não fala”. Ele pode chorar por Atreiu. Pode temer pelo destino de Fantasia. Pode sentir o avanço do Nada. Pode desejar que alguém salve aquilo que está desaparecendo.
Ao acompanhar outra história, ele encontra uma distância segura para tocar a própria dor.
É nesse ponto que a fantasia pode validar uma experiência infantil. Ela diz, sem dar uma lição apressada: há tristezas que pesam; há perdas que parecem engolir tudo; há momentos em que ninguém sabe como seguir. E, ainda assim, alguém pode continuar chamando, ouvindo, imaginando.
Artax e o que o amor não consegue fazer sozinho

Poucas cenas são tão marcantes para quem assistiu ao filme na infância quanto a travessia dos Pântanos da Tristeza. Artax, o cavalo de Atreiu, começa a afundar. Atreiu chama, implora, puxa as rédeas, promete que os dois sairão dali. Mas Artax não consegue seguir.
A cena é brutal porque desmonta uma fantasia reconfortante: a de que amar alguém basta para salvá-lo de toda dor. Atreiu ama Artax. Ele permanece. Ele luta. E ainda assim perde o companheiro.
Uma aproximação com a distinção freudiana entre luto e melancolia pode tornar essa cena ainda mais pungente, desde que não seja usada como diagnóstico de personagens. Em Luto e melancolia, Freud descreve o luto como um trabalho doloroso diante da perda; a melancolia, por sua vez, pode envolver um empobrecimento mais radical da relação consigo e com o mundo. Artax não é um caso clínico. Mas sua imobilidade dá forma visível a um desânimo que parece retirar do corpo a possibilidade de avançar.
Para Bastian, que carrega a morte da mãe, assistir à perda de Artax pode funcionar como uma aproximação indireta de algo que ainda não consegue encarar de frente. A ficção não apaga a ausência. Ela constrói uma cena em que a ausência pode ser sentida.
Isso importa porque crianças também precisam de permissão para sofrer sem que seu sofrimento seja imediatamente consertado, minimizado ou convertido em lição. “Não chora”, “não pensa nisso”, “você precisa ser forte”: frases assim podem nascer de uma intenção de cuidado, mas às vezes deixam a criança ainda mais sozinha dentro do que sente.
Síntese autoral: a fantasia não salva Artax. Mas permite que Bastian chore por uma perda que talvez ainda não pudesse chamar pelo próprio nome.
O livro que olha de volta
Há um momento em que Bastian percebe que não está apenas lendo a aventura de Atreiu. Atreiu parece vê-lo do outro lado do livro. A história devolve o olhar, e o menino se assusta.
A cena cria um jogo delicado entre leitor e narrativa. Bastian começa como espectador: observa um herói atravessar perigos, como quem pode sentir tudo sem se comprometer inteiramente. Mas, aos poucos, descobre que sua presença importa. Fantasia não será salva por alguém que apenas assiste.
Winnicott pode ajudar a pensar essa passagem. Ao escrever sobre o brincar, ele descreveu uma área intermediária entre a realidade interna e a realidade compartilhada, uma área em que a criança cria, experimenta e encontra formas de existir com o outro. Não se trata de uma simples fuga do real. No brincar vivo, algo do mundo interno pode ganhar forma e entrar em relação.
O livro de Bastian ocupa esse lugar ambíguo. É um objeto material, roubado de uma livraria, mas também se torna uma passagem íntima e simbólica. Ele oferece abrigo; ao mesmo tempo, exige resposta. A leitura deixa de ser somente esconderijo quando Bastian entende que terá de participar dela.
Esse talvez seja um dos gestos mais bonitos do filme: a imaginação não é apresentada como o contrário da responsabilidade. Ela pode ser o caminho pelo qual alguém volta a responder ao mundo.
Dar nome ao que quase desapareceu

No desfecho, a Imperatriz Criança precisa receber um novo nome. Bastian hesita. Tem medo de falar, de se expor, de admitir que aquela história também lhe pertence. Quando finalmente chama por ela, realiza um ato simbólico: não ressuscita a mãe, não desfaz a perda, não resolve magicamente a relação com o pai. Mas encontra uma palavra e um gesto para sair da paralisia.
Nomear não é dominar aquilo que dói. É começar a reconhecê-lo como parte de uma experiência que pode ser compartilhada.
A leitura de que Bastian, ao nomear a Imperatriz, procura reconstruir simbolicamente algo da figura materna é uma interpretação possível, não uma verdade definitiva sobre o filme. Ela se torna especialmente significativa porque a fantasia não devolve a ele o que morreu. Em vez disso, oferece uma forma de preservar vínculo, memória e desejo sem fingir que a ausência deixou de existir.
Síntese autoral: crescer talvez não seja abandonar a fantasia para aceitar o real. Talvez seja encontrar, na fantasia, uma ponte para que o real deixe de ser insuportavelmente mudo.
O que o filme não mostra — e o romance aprofunda
A adaptação de Wolfgang Petersen cobre apenas uma parte do romance de Michael Ende. No livro, Bastian entra em Fantasia e passa a realizar desejos; porém, cada desejo lhe custa uma lembrança da vida anterior. A fantasia, então, deixa de ser apenas passagem e se torna também risco: o risco da onipotência, do afastamento dos vínculos, do esquecimento de si.
Esse prolongamento é decisivo. Ele impede uma leitura ingênua segundo a qual imaginar seria sempre bom ou bastaria para curar. A fantasia pode elaborar a dor; pode também se converter em isolamento quando não encontra retorno para o mundo compartilhado.
É por isso que a oposição entre “fantasiar” e “encarar a realidade” empobrece tanto a experiência de Bastian. Não é preciso escolher entre uma coisa e outra. A questão é saber se a imaginação cria passagem ou clausura; se ela ajuda a sentir e comunicar ou se se torna o único lugar onde alguém consegue existir.
Para uma criança, um conto pode ser uma primeira companhia diante do indizível. Para um adulto, ele pode ser um lembrete de que nem toda dor chega falando a linguagem que esperamos. Às vezes, ela aparece como medo de monstros, como uma história repetida, como uma brincadeira insistente, como uma pergunta aparentemente sem importância. Às vezes, aparece como silêncio.
A História Sem Fim continua comovendo porque não trata a fantasia como enfeite da infância. Trata-a como uma faculdade humana séria: a capacidade de criar imagens quando a vida ainda não oferece palavras suficientes.
Artax afunda. Atreiu continua. Bastian chora, hesita e finalmente chama.
Não há triunfo sem perda, nem história capaz de abolir o sofrimento. Mas há narrativas que, por alguns instantes, tornam possível que a tristeza deixe de ser o único mundo possível.
Esta é uma interpretação psicanalítica e autoral do filme e do romance; não constitui diagnóstico de personagens, nem atribui aos autores das obras uma intenção clínica.
Referências bibliográficas e documentais
Referências
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