O Eremita: a lanterna que ninguém pediu, mas todos precisam

Uma leitura do Eremita no tarô Waite-Smith: a lanterna, o cajado, a montanha e a fronteira entre recolhimento, orientação e fuga.

Publicado em 2 de outubro de 2026
Ilustração de homem idoso encapuzado com cajado e lanterna de estrela de seis pontas sobre um cume nevado, diante de montanhas e do sol baixo.
Uma luz pequena não dissolve a montanha, mas pode revelar o próximo trecho. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Na carta IX do tarô Waite-Smith, um homem sobe sozinho uma montanha e ergue uma luz. A imagem não celebra o isolamento por si só: entre o recolhimento que amadurece e a distância que vira fuga, o Eremita oferece uma claridade modesta para quem ainda está subindo.

A carta IX do tarô Waite-Smith mostra um homem só no alto de uma montanha, erguendo uma lanterna. Arthur Edward Waite leu essa figura como imagem de realização espiritual — e recusou reduzi-la a um solitário que se esconde do mundo. A própria composição, criada por Pamela Colman Smith para o baralho concebido com Waite, sustenta esse desvio: ali, a simplicidade não é falta de assunto. É uma espécie de silêncio cuidadosamente construído.

A imagem é econômica até a avareza. Um ancião, curvado sob um manto cinzento, detém-se num cume nevado. Numa mão, uma lanterna; na outra, um cajado. Não há discípulos, animais, casas ou cidade ao fundo. Só a figura, a luz e um caminho que a carta se recusa a mostrar por inteiro.

Dentro da lanterna, uma estrela de seis pontas. Waite a identifica como o Selo de Salomão em The Pictorial Key to the Tarot, livro publicado em 1910 como chave interpretativa do baralho que a editora Rider lançara no ano anterior. A forma remete, no vocabulário esotérico de que Waite participava, a tradições herméticas e cabalísticas. Não se trata, portanto, de uma luz indiferenciada: é uma luz simbolicamente elaborada, uma claridade que passou pelo trabalho do conhecimento antes de alcançar alguém.

Reparar no gesto da lanterna altera a cena. O Eremita não a abaixa para examinar cada pedra à sua frente, como faria um viajante preocupado apenas com o próprio passo. Ele a ergue quase à altura do rosto, voltada para fora da imagem — para nós. A carta não resolve, por si, se o homem está chegando, partindo ou apenas parado. Mas essa luz elevada torna difícil enxergá-lo como alguém inteiramente voltado para si mesmo.

Waite concentra ali sua leitura. O Eremita seria uma figura de realização, alguém situado numa elevação e portando um farol. Em formulação atribuída ao sentido da carta, a luz sugere: onde ele chegou, outros também podem chegar. A diferença é decisiva. Esse homem não está necessariamente procurando uma verdade distante; ele parece ter encontrado ao menos uma orientação e agora a preserva acesa.

O bastão completa a ideia. É apoio físico, instrumento de travessia, contato com a aspereza do terreno. A estrela, em contraste, não toca o chão: ilumina. Entre ambos está o Eremita, dependente tanto da firmeza necessária para avançar quanto de uma visão que excede o próximo metro de neve. A carta não promete que a luz revelará a montanha inteira. Mostra o suficiente para continuar.

A paisagem despojada intensifica a sensação de isolamento. Não há vegetação, abrigo ou vestígio de companhia; há pedra, frio e altura. Waite teve vínculos com a Ordem Hermética da Aurora Dourada e, mais tarde, fundou a Fellowship of the Rosy Cross, organizações associadas ao amplo renascimento ocultista britânico do fim do século XIX e início do XX. Nesse repertório, a solidão podia ser entendida não apenas como castigo, mas como método: um intervalo em que o ruído social diminui e a escuta se torna possível.

Isso não significa que toda retirada seja sábia. A carta é mais exigente do que as versões populares que a resumem a “busca interior”. Há recolhimentos que devolvem uma pessoa ao mundo com mais clareza; há outros que apenas a protegem do risco de viver. A imagem do Eremita permanece tensa justamente porque não resolve essa diferença em nosso lugar.

A longa barba branca inscreve o personagem numa linhagem visual de sábios, profetas, peregrinos e anciãos da arte ocidental. Mas Smith não pinta um patriarca triunfante. Sua figura é pequena diante da montanha, vulnerável ao frio, quase engolida pelo próprio manto. Formada no Pratt Institute e ligada ao teatro antes de se dedicar mais intensamente à ilustração, Pamela Colman Smith construiu no baralho cenas suspensas, como se algo decisivo tivesse acabado de acontecer — ou estivesse prestes a acontecer. No Eremita, esse instante é o da pausa.

Ele não caminha, não fala, não convoca. Apenas permanece, com a lanterna erguida, num gesto que parece durar séculos.

A posição da carta na sequência dos arcanos maiores também importa. Depois do Carro, com seu impulso de avanço, e da Força, com sua imagem de relação consciente com o instinto, o Eremita interrompe a marcha. Introduz uma pergunta incômoda: de que valem as conquistas exteriores se nunca paramos tempo bastante para perguntar por quê?

Waite associou a carta à prudência e à circunspecção, mas suas atribuições divinatórias não são inteiramente confortáveis. Ao lado dessas palavras, aparecem traição, dissimulação e corrupção; na posição invertida, ocultamento, disfarce, medo e cautela sem motivo. É um vocabulário que impede uma leitura automaticamente virtuosa. A reserva pode proteger uma reflexão; também pode esconder uma intenção. A prudência pode ser discernimento; em excesso, pode vestir o medo com roupas respeitáveis.

É aqui que o Eremita ganha sombra. O homem no alto pode parecer sábio porque está longe dos outros, mas distância não produz sabedoria por si só. A luz pode orientar — ou servir apenas para que seu portador se admire. A solidão pode virar título, como se estar apartado fosse prova de superioridade.

A lanterna, porém, não é uma coroa. Ela não proclama que o homem possui a verdade. Indica somente que ele encontrou uma luz capaz de orientar alguns passos.

Síntese autoral: o Eremita não se torna mestre porque se isolou; torna-se uma figura possível de orientação se aquilo que encontrou no silêncio puder ser oferecido sem virar ordem.

Há uma inversão delicada na imagem: o velho está no cume, mas não usa a luz de modo ostensivo para si. Ele a levanta para fora. Seu conhecimento, nessa leitura, não se completa quando ele chega a algum lugar. Completa-se quando pode ser compartilhado sem coerção. O farol aponta uma possibilidade; não arrasta ninguém pela montanha.

Há uma mística discreta nisso. O Eremita não faz um milagre, não recebe uma visão espetacular, não abre o céu. Carrega uma estrela numa lanterna. O infinito, aqui, ganha tamanho humano: uma claridade pequena, protegida do vento, sustentada por uma mão que talvez trema. O sagrado não aparece como espetáculo, mas como luz portátil — uma luz que acompanha uma pessoa na subida e ainda pode ser percebida por quem vem atrás.

O número IX prolonga esse clima. Está perto do fim de uma sequência, mas não encerra os arcanos maiores como O Mundo, carta XXI. O Eremita sugere um conhecimento amadurecido, não uma chegada definitiva. Seu saber continua ligado ao percurso. Ele sobe e, então, levanta a luz para quem vem depois.

Essa dimensão coletiva costuma desaparecer quando o arcano é resumido como “isolamento”. Waite, em sua interpretação, dá à lâmpada uma função de farol. A figura está só, mas seu gesto não é inteiramente privado. Sua solidão encontra sentido porque produz algo visível.

Quando a carta aparece numa leitura de tarô, ela pode convidar a perguntar que espécie de recolhimento está em curso. É o intervalo necessário para distinguir a própria voz das vozes alheias? Uma busca por orientação? Ou o medo de voltar ao convívio, expor uma ideia, admitir que ainda não se sabe?

O tarô não oferece uma resposta objetiva e universal para essas perguntas. Trata-se de um sistema simbólico e divinatório, não de um instrumento de diagnóstico psicológico ou de comprovação científica. A resposta, quando existe, nasce da relação entre a imagem, a pergunta formulada e a situação concreta de quem a consulta.

Síntese autoral: a sombra do Eremita começa quando a pausa deixa de iluminar a vida e passa a justificar o desaparecimento dela.

Ainda assim, a carta preserva uma sabedoria que não depende de se acreditar literalmente em seus poderes divinatórios. Numa cultura que frequentemente trata pausa como fracasso e produtividade ininterrupta como virtude, sua figura faz uma defesa incômoda da demora. Nem toda resposta pode ser produzida sob pressão, em voz alta ou diante de uma plateia.

O Eremita não fornece o mapa completo. Sua luz não mostra todos os contornos da montanha nem garante uma travessia fácil. Revela um trecho — talvez o bastante para o próximo passo. E, do alto, o homem não diz “sigam-me”. Ergue o farol como quem diz: há uma maneira de chegar; talvez a sua também possa ser encontrada.

No fim, talvez a lição mais duradoura do arcano esteja também na história de sua criação. Durante décadas, Pamela Colman Smith recebeu menos reconhecimento público do que Waite, embora sua invenção visual seja inseparável da força do baralho hoje chamado, de modo mais justo, Waite-Smith. Entre o teórico e a artista, surgiu um sistema de imagens que continua falando a leitores de épocas muito diferentes.

A sabedoria, sugere o Eremita, raramente grita de um palanque. Ela sobe sozinha, carrega uma luz modesta e espera — com paciência quase sobrenatural — que alguém disposto a fazer a própria travessia erga os olhos e perceba que ela estava ali.

Referências bibliográficas e documentais

Referências e leituras de apoio

  • WAITE, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1910. Edição digital em domínio público: Project Gutenberg.
  • SMITH, Pamela Colman. “IX. The Hermit”, ilustração para o baralho publicado por William Rider & Son, 1909. Reprodução disponível na edição digital de The Pictorial Key to the Tarot, de Waite, indicada acima.
  • KAPLAN, Stuart R. The Artwork and Times of Pamela Colman Smith. Stamford: U.S. Games Systems, 2009.
  • DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Nova York: St. Martin’s Press, 1996.
  • GREER, Mary K. Women of the Golden Dawn: Rebels and Priestesses. Rochester: Park Street Press, 1995.
  • PLACE, Robert M. The Tarot: History, Symbolism, and Divination. Nova York: Tarcher/Penguin, 2005.
  • POLLACK, Rachel. Seventy-Eight Degrees of Wisdom: A Book of Tarot. 3. ed. Londres: Thorsons, 1997.
  • NICHOLS, Sallie. Jung and Tarot: An Archetypal Journey. York Beach: Samuel Weiser, 1980.
  • SHARMAN-BURKE, Juliet; GREENE, Liz. The Mythic Tarot. Nova York: Simon & Schuster, 1986.

Nota editorial: as obras de Pollack, Nichols e Sharman-Burke/Greene são leituras interpretativas contemporâneas do tarô; não são fontes primárias para estabelecer as intenções de Waite ou Smith. A leitura do artigo prioriza a descrição de Waite e distingue interpretações autorais de documentação histórica.

Lanterna acesa com estrela geométrica ao lado de um cajado sobre neve e rochas, diante de montanhas desfocadas.
Entre o apoio do cajado e a luz da lanterna, a imagem aproxima travessia concreta e orientação. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.
Trilha de pedra sobe por uma crista montanhosa até um pequeno foco de luz, em colagem de papéis rasgados e círculos dourados.
O Eremita não entrega um mapa inteiro; oferece uma orientação parcial. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.