Sobre o fanatismo político, a cegueira que se confunde com clareza e o preço íntimo de transformar representantes em ídolos.
Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago imagina uma epidemia em que ninguém mergulha nas trevas: todos afundam num branco leitoso, luminoso, quase pacífico. Não é a ausência de luz que paralisa; é o excesso dela. A imagem oferece uma chave potente para pensar o fanatismo político.
O fanático raramente se sente no escuro. Ao contrário: sente-se o único iluminado, o último homem lúcido num mundo de vendados. A cegueira que se confunde com clareza é especialmente difícil de interromper porque não se reconhece como sintoma. Chama de convicção aquilo que, há muito, pode ter se tornado reflexo.
Convém desfazer um mal-entendido confortável. Fanatismo não é simples falta de inteligência, escolaridade ou informação. Médicos, professores, juízes, leitores atentos e pessoas capazes de raciocinar com sofisticação em tantos campos podem defender, na política, aquilo que jamais aceitariam em qualquer outro território da vida. Se o problema fosse apenas cognitivo, fatos bastariam. Mas ninguém muda de posição apenas porque recebeu uma planilha, assim como ninguém se agarra a uma crença somente porque lhe faltaram dados.
A política se torna fanática quando deixa de ser conversa sobre o mundo e passa a ser defesa de nós mesmos. O candidato já não é alguém em quem votamos, alguém que deve responder por seus atos, mas parte da nossa identidade: um retrato pendurado por dentro. Quando atacam esse retrato, parece que atacam também aquilo que somos.
É assim que a idolatria se instala. Nem sempre chega em gritos ou palavras de ordem. Às vezes, começa numa justificativa pequena: ele errou, mas o outro faria pior. Depois, a justificativa vira hábito; o hábito, lealdade; e a lealdade, uma forma de cegueira consentida. O erro do adversário é prova de caráter. O erro do próprio campo vira detalhe, contexto, perseguição, exagero. A mesma realidade recebe nomes diferentes conforme a cor da bandeira.
Há uma cena recorrente nesse processo. Surge uma denúncia, uma prova, uma investigação, um caso de violência, desvio ou mentira. Se envolve o adversário, a notícia parece suficiente para resumir uma vida inteira. Se envolve o líder amado, começa o trabalho de salvar a imagem: desconfia-se de toda fonte, encontra-se uma exceção processual, desloca-se o assunto, procura-se imediatamente um escândalo do outro lado.
Contexto é necessário. Provas, ampla defesa e rigor na apuração são indispensáveis em qualquer democracia. O problema começa quando esses princípios só valem para os nossos e desaparecem quando o acusado veste a bandeira errada. Nesse ponto, a justiça deixa de ser um valor e se torna ferramenta de torcida.
Síntese autoral: não é maturidade política defender alguém de uma acusação sem examinar os fatos; tampouco é maturidade condená-lo sem prova. A venda aparece quando o nosso compromisso com a regra muda de acordo com o rosto que está diante de nós.
O amor que não vê defeitos

Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud investiga os vínculos afetivos que organizam os grupos e descreve a força da idealização de uma figura de liderança. Nessa leitura, o líder pode ocupar para o indivíduo o lugar de um ideal: torna-se depositário de expectativas, admiração e promessas que excedem em muito a pessoa real.
Essa é uma lente psicanalítica, não uma explicação total para toda escolha eleitoral. Ainda assim, ela ajuda a nomear algo reconhecível: quem ama de modo idealizado tende a superestimar o objeto, a perdoar o que não perdoaria em outro e a silenciar a própria crítica. O eleitor fanático talvez não ignore o erro do ídolo apenas por má-fé. Muitas vezes, não consegue vê-lo sem que a imagem que sustenta a si mesmo também se abale.
O custo é narcísico. Se o líder se tornou minha imagem ampliada, a falha dele toca a minha própria falha. Admitir um absurdo, uma mentira ou um crime pode exigir reconhecer que investimos afeto, voto, tempo, amizades desfeitas e discussões familiares numa promessa que não se cumpriu. Psíquica e socialmente, parece mais barato reinterpretar o fato do que reformar o eu. O erro vira estratégia. A prova vira perseguição. O documento vira montagem.
Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter acompanharam um grupo que previa o fim do mundo em data determinada. Quando a profecia falhou e o mundo continuou, parte dos participantes não abandonou a crença; intensificou a tentativa de convencer outras pessoas. O estudo se tornou uma referência para a formulação da dissonância cognitiva: diante do choque entre uma convicção e a realidade, seres humanos podem buscar novas justificativas para preservar um investimento já muito alto.
Não é preciso reduzir a experiência política a esse experimento para reconhecer sua pergunta incômoda: quanto mais alguém sacrificou por uma crença, mais doloroso pode ser abandoná-la.
Há lealdades que começam como preferência e terminam como exigência de sacrifício. Primeiro se perde a conversa; depois, a confiança; às vezes, perde-se gente. Filhos deixam de visitar mães, irmãos param de se falar, amizades de décadas se desfazem porque uma crítica ao político idolatrado é recebida como insulto íntimo.
Não se trata apenas de intolerância a uma opinião. Trata-se da transformação de uma figura pública em vínculo sagrado: quem a questiona passa a parecer ameaça, mesmo quando senta à mesma mesa e carrega a mesma história.
O mais trágico é que o político raramente sabe o nome das pessoas que se ferem para defendê-lo. Mas, na vida privada, sua imagem ocupa cadeiras vazias, interrompe aniversários, atravessa lutos e se instala em silêncios. A idolatria exige dos outros uma prova contínua de fidelidade e chama de traição aquilo que, numa democracia, deveria ser apenas o direito de pensar diferente.
O inimigo como espelho
A noção de sombra, desenvolvida por Carl Gustav Jung, é frequentemente mobilizada para pensar aquilo que o eu recusa reconhecer em si e tende a atribuir ao outro. Como leitura editorial, ela ilumina uma dimensão do discurso fanático: o adversário político se torna inteiramente corrupto, ignorante, perigoso, falso. O próprio lado, por contraste, aparece puro, virtuoso e injustiçado.
A realidade, porém, não costuma respeitar essa divisão confortável. Pessoas e grupos podem defender pautas legítimas e cometer abusos; podem denunciar corrupção em um campo e relativizá-la no seu; podem falar em liberdade e desejar silenciar os dissidentes. Reconhecer essa ambivalência não equivale a dizer que todos os projetos políticos, fatos históricos ou responsabilidades institucionais são iguais. Significa apenas recusar que a afinidade ideológica funcione como absolvição automática.
O fanático precisa de um inimigo perfeito para manter o próprio rosto limpo. E talvez seja por isso que o ódio seja tão intenso: ele protege uma imagem de inocência que não tolera ser perturbada.
Síntese autoral: a corrupção que mais nos escandaliza pode ser aquela que confirma a nossa inocência. A do outro lado nos permite dormir moralmente inteiros; a do nosso nos obriga a perguntar quanto de nós foi depositado naquela escolha.
Essa pergunta não quer dizer que quem votou em alguém se torna autor de cada ato cometido por ele. Responsabilidade jurídica e responsabilidade política não são a mesma coisa. Mas a idolatria produz uma confusão particular: toda crítica ao líder passa a soar como acusação pessoal contra quem o apoiou. Então, em vez de examinar o que aconteceu, protege-se a identidade ferida.
Reconhecer um fato incômodo exige uma espécie de luto: luto pela promessa não cumprida, pela imagem que não era verdadeira, pelo tempo e pela confiança depositados. Em vez de atravessar essa perda, muitas vezes atacamos quem a aponta.
Compreender o mecanismo não significa absolvê-lo. Explicar o apego não torna inofensivas as escolhas, os discursos ou os atos que ele sustenta. O fanatismo é perigoso justamente porque transforma a dúvida em traição e a vergonha em agressividade. Quando o eleitor já não pergunta “o que aconteceu?”, mas apenas “quem está dizendo?”, os fatos começam a valer menos que a fidelidade.
O medo de pensar sozinho
Erich Fromm escreveu sobre a angústia implicada na liberdade: a tarefa de escolher, responsabilizar-se e existir sem se apoiar inteiramente numa autoridade ou num coletivo. Elias Canetti investigou a experiência da massa e o alívio que pode haver na suspensão provisória das distâncias entre os indivíduos. Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo, chamou atenção para o desamparo, o isolamento e a sedução de explicações ideológicas fechadas sobre si mesmas.
Essas obras pertencem a contextos e problemas diferentes; não devem ser usadas como rótulos fáceis para qualquer polarização contemporânea. Mas, postas em diálogo, oferecem uma hipótese humana: pertencer alivia. Duvidar sozinho pode doer. A certeza coletiva pode funcionar como anestésico diante da complexidade, do medo e da responsabilidade de pensar.
É mais confortável repetir uma frase pronta do que permanecer diante de uma contradição. É mais simples escolher um inimigo absoluto do que aceitar que o mundo é feito de conflitos reais, interesses, erros, assimetrias e ambiguidades. A ideologia, quando vira abrigo total, oferece algo sedutor: uma explicação para tudo e a dispensa de rever a si mesmo.
Mas votar não deveria ser uma declaração de amor eterno. Democracia não é casamento com político, torcida organizada ou religião de gabinete. É uma relação provisória com representantes que precisam prestar contas. O voto não obriga ninguém a protegê-los de toda crítica; obriga, ao contrário, a observá-los com atenção.
A lealdade democrática pertence a princípios, instituições e pessoas concretas afetadas pelas decisões públicas — não ao orgulho de nunca ter mudado de ideia.
Sobre os outros, é claro
Há uma armadilha neste texto. Ela aparece no instante em que o leitor pensa imediatamente em um parente, colega ou eleitor do lado oposto. Talvez esse impulso não invalide a leitura; talvez apenas revele onde ela começa.
A pesquisa reunida em The Authoritarian Personality, publicada em 1950 sob coordenação de Theodor W. Adorno e colaboradores, investigou disposições como rigidez, intolerância à ambiguidade e submissão à autoridade em um contexto histórico específico. Não é uma senha para diagnosticar qualquer pessoa ou partido. Mas sua permanência no debate recorda algo decisivo: o desejo de uma autoridade que elimine a dúvida não pertence naturalmente a uma única cor política.
O fanatismo não tem uma cor fixa. Tem gosto: o gosto de ter razão.
Um teste sem plateia: qual foi a última vez que você disse, em voz alta, que o seu lado errou? Sem um “mas” logo em seguida. Sem o “só que o outro é pior”. Sem transformar o reconhecimento numa nova peça de propaganda.
Se a resposta demora, não é preciso fazer dela vergonha. Ela pode ser um mapa. Mostra onde a venda está mais apertada.
A saída não é o cinismo de quem descrê de tudo, nem a anestesia de quem se afasta por cansaço. É mais difícil: amar sem idolatrar; pertencer sem se dissolver; sustentar a ambivalência sem correr para o primeiro colo que prometa certeza.
Reconhecer um erro do próprio campo não é traição. Pode ser o primeiro gesto adulto de quem decidiu voltar a enxergar.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja “como eles conseguem não ver?”. Talvez seja esta: o que, em nós, precisa permanecer invisível para que continuemos dizendo que não há nada a ver?
Às vezes, recuperar a visão começa por suportar essa pergunta. Rever uma escolha não é confessar incapacidade de pensar. Pode ser, ao contrário, o primeiro gesto de pensamento depois que o fanatismo tentou pensar por nós.
Tirar a venda dói, como a luz quando se sai de um quarto fechado. Mas só depois dessa dor voltamos a ver o rosto do outro — e, quem sabe, o próprio.
Referências bibliográficas e documentais
Bibliografia e notas de referência
As obras abaixo sustentam os diálogos do ensaio. As associações entre elas e o debate político contemporâneo são interpretações editoriais autorais, não atribuições literais aos autores.
- ADORNO, Theodor W. et al. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950. Registro digital: APA PsycNet / DOI 10.1037/11302-000.
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Página da obra: Companhia das Letras.
- CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Referência de obra: WorldCat.
- FESTINGER, Leon; RIECKEN, Henry W.; SCHACHTER, Stanley. When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group That Predicted the Destruction of the World. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1956. Registro: Internet Archive.
- FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920–1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, v. 15). Página da coleção: Companhia das Letras.
- FROMM, Erich. O medo à liberdade. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. Referência de obra: WorldCat.
- JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras completas, v. 9/2). Referência de obra: WorldCat.
- SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Página da obra: Companhia das Letras.


