A venda que escolhemos

Um ensaio sobre fanatismo político, idolatria de líderes, dissonância cognitiva e o preço humano de transformar divergência em traição.

Publicado em 29 de setembro de 2026
Pessoa vista de costas, com faixa branca translúcida sobre os olhos, diante de uma cidade ao entardecer.
A cegueira política nem sempre se percebe como escuridão: muitas vezes se apresenta como certeza. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Sobre o fanatismo político, a cegueira que se confunde com clareza e o preço íntimo de transformar representantes em ídolos.

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago imagina uma epidemia em que ninguém mergulha nas trevas: todos afundam num branco leitoso, luminoso, quase pacífico. Não é a ausência de luz que paralisa; é o excesso dela. A imagem oferece uma chave potente para pensar o fanatismo político.

O fanático raramente se sente no escuro. Ao contrário: sente-se o único iluminado, o último homem lúcido num mundo de vendados. A cegueira que se confunde com clareza é especialmente difícil de interromper porque não se reconhece como sintoma. Chama de convicção aquilo que, há muito, pode ter se tornado reflexo.

Convém desfazer um mal-entendido confortável. Fanatismo não é simples falta de inteligência, escolaridade ou informação. Médicos, professores, juízes, leitores atentos e pessoas capazes de raciocinar com sofisticação em tantos campos podem defender, na política, aquilo que jamais aceitariam em qualquer outro território da vida. Se o problema fosse apenas cognitivo, fatos bastariam. Mas ninguém muda de posição apenas porque recebeu uma planilha, assim como ninguém se agarra a uma crença somente porque lhe faltaram dados.

A política se torna fanática quando deixa de ser conversa sobre o mundo e passa a ser defesa de nós mesmos. O candidato já não é alguém em quem votamos, alguém que deve responder por seus atos, mas parte da nossa identidade: um retrato pendurado por dentro. Quando atacam esse retrato, parece que atacam também aquilo que somos.

É assim que a idolatria se instala. Nem sempre chega em gritos ou palavras de ordem. Às vezes, começa numa justificativa pequena: ele errou, mas o outro faria pior. Depois, a justificativa vira hábito; o hábito, lealdade; e a lealdade, uma forma de cegueira consentida. O erro do adversário é prova de caráter. O erro do próprio campo vira detalhe, contexto, perseguição, exagero. A mesma realidade recebe nomes diferentes conforme a cor da bandeira.

Há uma cena recorrente nesse processo. Surge uma denúncia, uma prova, uma investigação, um caso de violência, desvio ou mentira. Se envolve o adversário, a notícia parece suficiente para resumir uma vida inteira. Se envolve o líder amado, começa o trabalho de salvar a imagem: desconfia-se de toda fonte, encontra-se uma exceção processual, desloca-se o assunto, procura-se imediatamente um escândalo do outro lado.

Contexto é necessário. Provas, ampla defesa e rigor na apuração são indispensáveis em qualquer democracia. O problema começa quando esses princípios só valem para os nossos e desaparecem quando o acusado veste a bandeira errada. Nesse ponto, a justiça deixa de ser um valor e se torna ferramenta de torcida.

Síntese autoral: não é maturidade política defender alguém de uma acusação sem examinar os fatos; tampouco é maturidade condená-lo sem prova. A venda aparece quando o nosso compromisso com a regra muda de acordo com o rosto que está diante de nós.

O amor que não vê defeitos

Mesa de jantar parcialmente posta, com duas cadeiras vazias, pratos usados e taças diante de uma janela ao pôr do sol.
Na vida privada, a polarização pode deixar ausências à mesa antes mesmo que a conversa termine. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud investiga os vínculos afetivos que organizam os grupos e descreve a força da idealização de uma figura de liderança. Nessa leitura, o líder pode ocupar para o indivíduo o lugar de um ideal: torna-se depositário de expectativas, admiração e promessas que excedem em muito a pessoa real.

Essa é uma lente psicanalítica, não uma explicação total para toda escolha eleitoral. Ainda assim, ela ajuda a nomear algo reconhecível: quem ama de modo idealizado tende a superestimar o objeto, a perdoar o que não perdoaria em outro e a silenciar a própria crítica. O eleitor fanático talvez não ignore o erro do ídolo apenas por má-fé. Muitas vezes, não consegue vê-lo sem que a imagem que sustenta a si mesmo também se abale.

O custo é narcísico. Se o líder se tornou minha imagem ampliada, a falha dele toca a minha própria falha. Admitir um absurdo, uma mentira ou um crime pode exigir reconhecer que investimos afeto, voto, tempo, amizades desfeitas e discussões familiares numa promessa que não se cumpriu. Psíquica e socialmente, parece mais barato reinterpretar o fato do que reformar o eu. O erro vira estratégia. A prova vira perseguição. O documento vira montagem.

Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter acompanharam um grupo que previa o fim do mundo em data determinada. Quando a profecia falhou e o mundo continuou, parte dos participantes não abandonou a crença; intensificou a tentativa de convencer outras pessoas. O estudo se tornou uma referência para a formulação da dissonância cognitiva: diante do choque entre uma convicção e a realidade, seres humanos podem buscar novas justificativas para preservar um investimento já muito alto.

Não é preciso reduzir a experiência política a esse experimento para reconhecer sua pergunta incômoda: quanto mais alguém sacrificou por uma crença, mais doloroso pode ser abandoná-la.

Há lealdades que começam como preferência e terminam como exigência de sacrifício. Primeiro se perde a conversa; depois, a confiança; às vezes, perde-se gente. Filhos deixam de visitar mães, irmãos param de se falar, amizades de décadas se desfazem porque uma crítica ao político idolatrado é recebida como insulto íntimo.

Não se trata apenas de intolerância a uma opinião. Trata-se da transformação de uma figura pública em vínculo sagrado: quem a questiona passa a parecer ameaça, mesmo quando senta à mesma mesa e carrega a mesma história.

O mais trágico é que o político raramente sabe o nome das pessoas que se ferem para defendê-lo. Mas, na vida privada, sua imagem ocupa cadeiras vazias, interrompe aniversários, atravessa lutos e se instala em silêncios. A idolatria exige dos outros uma prova contínua de fidelidade e chama de traição aquilo que, numa democracia, deveria ser apenas o direito de pensar diferente.

O inimigo como espelho

A noção de sombra, desenvolvida por Carl Gustav Jung, é frequentemente mobilizada para pensar aquilo que o eu recusa reconhecer em si e tende a atribuir ao outro. Como leitura editorial, ela ilumina uma dimensão do discurso fanático: o adversário político se torna inteiramente corrupto, ignorante, perigoso, falso. O próprio lado, por contraste, aparece puro, virtuoso e injustiçado.

A realidade, porém, não costuma respeitar essa divisão confortável. Pessoas e grupos podem defender pautas legítimas e cometer abusos; podem denunciar corrupção em um campo e relativizá-la no seu; podem falar em liberdade e desejar silenciar os dissidentes. Reconhecer essa ambivalência não equivale a dizer que todos os projetos políticos, fatos históricos ou responsabilidades institucionais são iguais. Significa apenas recusar que a afinidade ideológica funcione como absolvição automática.

O fanático precisa de um inimigo perfeito para manter o próprio rosto limpo. E talvez seja por isso que o ódio seja tão intenso: ele protege uma imagem de inocência que não tolera ser perturbada.

Síntese autoral: a corrupção que mais nos escandaliza pode ser aquela que confirma a nossa inocência. A do outro lado nos permite dormir moralmente inteiros; a do nosso nos obriga a perguntar quanto de nós foi depositado naquela escolha.

Essa pergunta não quer dizer que quem votou em alguém se torna autor de cada ato cometido por ele. Responsabilidade jurídica e responsabilidade política não são a mesma coisa. Mas a idolatria produz uma confusão particular: toda crítica ao líder passa a soar como acusação pessoal contra quem o apoiou. Então, em vez de examinar o que aconteceu, protege-se a identidade ferida.

Reconhecer um fato incômodo exige uma espécie de luto: luto pela promessa não cumprida, pela imagem que não era verdadeira, pelo tempo e pela confiança depositados. Em vez de atravessar essa perda, muitas vezes atacamos quem a aponta.

Compreender o mecanismo não significa absolvê-lo. Explicar o apego não torna inofensivas as escolhas, os discursos ou os atos que ele sustenta. O fanatismo é perigoso justamente porque transforma a dúvida em traição e a vergonha em agressividade. Quando o eleitor já não pergunta “o que aconteceu?”, mas apenas “quem está dizendo?”, os fatos começam a valer menos que a fidelidade.

O medo de pensar sozinho

Erich Fromm escreveu sobre a angústia implicada na liberdade: a tarefa de escolher, responsabilizar-se e existir sem se apoiar inteiramente numa autoridade ou num coletivo. Elias Canetti investigou a experiência da massa e o alívio que pode haver na suspensão provisória das distâncias entre os indivíduos. Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo, chamou atenção para o desamparo, o isolamento e a sedução de explicações ideológicas fechadas sobre si mesmas.

Essas obras pertencem a contextos e problemas diferentes; não devem ser usadas como rótulos fáceis para qualquer polarização contemporânea. Mas, postas em diálogo, oferecem uma hipótese humana: pertencer alivia. Duvidar sozinho pode doer. A certeza coletiva pode funcionar como anestésico diante da complexidade, do medo e da responsabilidade de pensar.

É mais confortável repetir uma frase pronta do que permanecer diante de uma contradição. É mais simples escolher um inimigo absoluto do que aceitar que o mundo é feito de conflitos reais, interesses, erros, assimetrias e ambiguidades. A ideologia, quando vira abrigo total, oferece algo sedutor: uma explicação para tudo e a dispensa de rever a si mesmo.

Mas votar não deveria ser uma declaração de amor eterno. Democracia não é casamento com político, torcida organizada ou religião de gabinete. É uma relação provisória com representantes que precisam prestar contas. O voto não obriga ninguém a protegê-los de toda crítica; obriga, ao contrário, a observá-los com atenção.

A lealdade democrática pertence a princípios, instituições e pessoas concretas afetadas pelas decisões públicas — não ao orgulho de nunca ter mudado de ideia.

Sobre os outros, é claro

Há uma armadilha neste texto. Ela aparece no instante em que o leitor pensa imediatamente em um parente, colega ou eleitor do lado oposto. Talvez esse impulso não invalide a leitura; talvez apenas revele onde ela começa.

A pesquisa reunida em The Authoritarian Personality, publicada em 1950 sob coordenação de Theodor W. Adorno e colaboradores, investigou disposições como rigidez, intolerância à ambiguidade e submissão à autoridade em um contexto histórico específico. Não é uma senha para diagnosticar qualquer pessoa ou partido. Mas sua permanência no debate recorda algo decisivo: o desejo de uma autoridade que elimine a dúvida não pertence naturalmente a uma única cor política.

O fanatismo não tem uma cor fixa. Tem gosto: o gosto de ter razão.

Um teste sem plateia: qual foi a última vez que você disse, em voz alta, que o seu lado errou? Sem um “mas” logo em seguida. Sem o “só que o outro é pior”. Sem transformar o reconhecimento numa nova peça de propaganda.

Se a resposta demora, não é preciso fazer dela vergonha. Ela pode ser um mapa. Mostra onde a venda está mais apertada.

A saída não é o cinismo de quem descrê de tudo, nem a anestesia de quem se afasta por cansaço. É mais difícil: amar sem idolatrar; pertencer sem se dissolver; sustentar a ambivalência sem correr para o primeiro colo que prometa certeza.

Reconhecer um erro do próprio campo não é traição. Pode ser o primeiro gesto adulto de quem decidiu voltar a enxergar.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja “como eles conseguem não ver?”. Talvez seja esta: o que, em nós, precisa permanecer invisível para que continuemos dizendo que não há nada a ver?

Às vezes, recuperar a visão começa por suportar essa pergunta. Rever uma escolha não é confessar incapacidade de pensar. Pode ser, ao contrário, o primeiro gesto de pensamento depois que o fanatismo tentou pensar por nós.

Tirar a venda dói, como a luz quando se sai de um quarto fechado. Mas só depois dessa dor voltamos a ver o rosto do outro — e, quem sabe, o próprio.

Referências bibliográficas e documentais

Bibliografia e notas de referência

As obras abaixo sustentam os diálogos do ensaio. As associações entre elas e o debate político contemporâneo são interpretações editoriais autorais, não atribuições literais aos autores.

  • ADORNO, Theodor W. et al. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950. Registro digital: APA PsycNet / DOI 10.1037/11302-000.
  • ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Página da obra: Companhia das Letras.
  • CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Referência de obra: WorldCat.
  • FESTINGER, Leon; RIECKEN, Henry W.; SCHACHTER, Stanley. When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group That Predicted the Destruction of the World. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1956. Registro: Internet Archive.
  • FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920–1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, v. 15). Página da coleção: Companhia das Letras.
  • FROMM, Erich. O medo à liberdade. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. Referência de obra: WorldCat.
  • JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras completas, v. 9/2). Referência de obra: WorldCat.
  • SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Página da obra: Companhia das Letras.