Os dois baralhos compartilham uma longa história, mas não oferecem a mesma experiência visual. Entre a composição e a cena, cada um ensina o olhar a começar por um lugar diferente.
Cinco moedas podem ocupar uma carta de modos muito distintos. Em um Tarô de Marselha, elas aparecem como cinco formas dispostas numa arquitetura de cores, ramos e cruzamentos. No Rider-Waite-Smith, duas pessoas caminham na neve diante de uma janela iluminada. O número e o naipe são os mesmos; a primeira imagem não oferece personagens, a segunda parece já conter um inverno, uma falta e uma história.
É nesse intervalo que a comparação entre Marselha e Rider-Waite-Smith se torna realmente interessante. A pergunta não é qual deles guarda o tarô “verdadeiro”, nem qual seria mais profundo. É outra: o que uma imagem nos ensina a perceber antes mesmo de começarmos a interpretá-la?
O Rider-Waite-Smith, frequentemente chamado apenas de RWS, tornou-se uma referência para quem se aproxima do tarô por meio de cenas. O Marselha, por sua vez, costuma ser apresentado como um sistema mais abstrato ou difícil, como se lhe faltasse algo que o RWS teria completado. Essa oposição empobrece os dois. Eles trabalham com gramáticas visuais diferentes — e essa diferença muda o tempo, o método e a qualidade da pergunta que fazemos às cartas.
Antes de ser oráculo, o tarô foi um jogo

A história documentada do tarô começa na Itália do século XV, no universo dos jogos de cartas com trunfos. Cartas associadas às famílias Visconti e Sforza, de Milão, estão entre os conjuntos antigos mais conhecidos. Eram objetos caros, ligados a ambientes aristocráticos, compostos por naipes, figuras de corte e trunfos alegóricos.
A adivinhação não está na origem comprovada dessas cartas. Ela pertence a uma história posterior: a de leitores, autores, escolas e práticas que passaram a encontrar nelas um campo simbólico capaz de sustentar outras perguntas.
Ao longo dos séculos, os jogos circularam pela Europa e suas imagens foram copiadas, transformadas e impressas. A expressão Tarô de Marselha reúne uma família gráfica, e não todos os tarôs franceses. O Noblet, produzido em Paris por volta de 1650, pertence a esse repertório; o exemplar de Philippe Vachier, datado de 1639 e conservado na BnF, mostra sua presença em Marselha já no século XVII. Nome de cidade, lugar de impressão e parentesco entre imagens não são a mesma coisa.
Nas cartas numeradas dos Arcanos Menores marselheses, predominam os emblemas dos naipes: copas, espadas, bastões e ouros organizados segundo o número da carta. Há desenho, ritmo, ornamento e, muitas vezes, vegetação que atravessa a composição. Em geral, não encontramos a narrativa humana dos Menores do RWS. As figuras da corte são outra parte do conjunto e já apresentam personagens.
Essa diferença pode alcançar uma preocupação bem comum: como olhar para a vida material quando o dinheiro aperta? No Cinco de Ouros marselhês, o desenho permite começar pela distribuição. O que ocupa o centro, o que se repete, onde parece haver espaço? A associação com despesas e recursos é de quem lê. A carta oferece uma composição; o orçamento terá de ser aberto fora dela.
A vida esotérica das cartas também tem história
No fim do século XVIII, o tarô começou a receber novas camadas de sentido no contexto europeu. Em 1781, Antoine Court de Gébelin defendeu uma origem egípcia para as cartas. A historiografia não sustenta essa hipótese: não há documentação que comprove que o tarô tenha sido um livro sagrado egípcio preservado sob a forma de jogo.
Ainda assim, uma origem sem fundamento histórico pode produzir consequências culturais muito reais. A proposta de Court de Gébelin ajudou a alterar o lugar do tarô no imaginário de certos leitores. Pouco depois, Etteilla desenvolveu sistemas divinatórios e publicou baralhos voltados para esse uso. No século XIX, correntes esotéricas relacionaram as cartas à astrologia, à numerologia, à cabala cristã e hermética, à alquimia e à magia cerimonial.
É possível reconhecer a força simbólica dessas tradições sem confundi-las com a origem documentada do objeto. O tarô tem, portanto, histórias que caminham juntas sem serem a mesma coisa: uma história de jogos, gravuras, oficinas e circulação de imagens; outra de usos divinatórios, sistemas esotéricos e experiências de leitura.
Essa distinção não diminui o fascínio. Ela devolve densidade ao objeto. Uma carta pode ser, ao mesmo tempo, um vestígio de cultura material europeia e uma imagem que alguém, hoje, escolhe consultar em busca de linguagem para aquilo que ainda não sabe nomear.
O que Pamela Colman Smith colocou em movimento
Em 1909, Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith criaram, em Londres, o baralho que seria conhecido como Rider-Waite-Smith. Segundo o V&A, foi no ambiente da Golden Dawn que seus caminhos se cruzaram. Esse contexto esotérico ajuda a situar o encontro, sem transformar cada detalhe da imagem em um código que só admitiria uma leitura.
Waite teve papel central no programa simbólico do conjunto, sobretudo na concepção dos Arcanos Maiores. Mas a presença de Pamela Colman Smith é decisiva para entendermos por que o RWS se tornou tão marcante. Nos Arcanos Menores, ela realizou algo que muda a experiência de leitura: deu corpo, paisagem, gesto e clima às cartas numeradas.
Não se trata de afirmar que ela inventou, sozinha e sem antecedentes, os Menores figurativos. O Tarô Sola Busca, produzido na Itália no fim do século XV, já apresentava figuras e cenas em cartas numeradas. Ele é um precedente importante. Comparações iconográficas, sobretudo em torno do Três de Espadas, aproximam elementos do Sola Busca e do RWS; mas uma influência direta sobre Smith exigiria documentação específica de acesso ao baralho, a reproduções ou a estudos sobre ele. Sem essa prova, antecedente não deve virar linhagem comprovada.
A contribuição visível de Smith permanece extraordinária mesmo sem esse atalho. No RWS, o número deixa de ser apenas quantidade e passa a habitar uma situação. Oito Copas mostra alguém que se afasta. Três Espadas apresenta um coração atravessado por lâminas. Dez Ouros organiza uma cena de família, patrimônio e passagem entre gerações. As cartas não entregam um sentido fechado, mas oferecem uma situação imaginável antes que o leitor formule qualquer método.
Síntese autoral: o Marselha e o RWS não diferem porque um teria símbolos e o outro, histórias. Ambos são simbólicos. A diferença está no primeiro gesto que cada imagem pede: no Marselha, compor relações; no RWS, entrar numa cena.
Duas cartas, dois começos
A comparação fica mais nítida quando a mesma carta é observada nos dois sistemas.
No Cinco de Ouros marselhês, o olhar pode se demorar no número ímpar, na distribuição das moedas, nas interrupções e nos eixos da composição. Em tradições contemporâneas de leitura, o naipe de Ouros é frequentemente ligado a matéria, recursos, trabalho, corpo e concretude; o cinco pode introduzir uma ideia de tensão ou deslocamento. Essas associações pertencem a métodos interpretativos — não constituem um significado universal demonstrável da carta.
No RWS, a neve e os corpos curvados aproximam a mesma pergunta da experiência de estar exposto. Imagine alguém que perdeu uma fonte de renda e evita encontrar amigos para não precisar contar. Diante dessa carta, talvez a pessoa reconheça menos a conta que falta pagar do que o frio de atravessá-la sozinha. A janela iluminada pode fazer surgir uma pergunta: existe algum apoio do qual me afastei por vergonha?

Nessa cena imaginada, o olhar encontrou uma possibilidade, não uma sentença sobre a situação financeira. A conversa com um amigo pode oferecer companhia e ainda deixar o problema material por resolver. A leitura ganha precisão quando consegue manter as duas coisas à vista. No Marselha, a atenção começou pela organização; no RWS, pelo que significa viver uma falta diante dos outros.
Os Enamorados mostram outro deslocamento. Em muitas versões do Marselha, L’Amoureux apresenta um jovem entre duas figuras, sob Cupido. A composição pode acender perguntas sobre escolha, desejo e posicionamento. No RWS, Waite aproxima as duas figuras de Adão e Eva e descreve, acima delas, uma grande figura alada, sem nomeá-la Rafael. Árvores e serpente situam a imagem no campo do Éden; a leitura da Alma se volta às consequências de encontrar o outro.
Seria pouco reduzir ambas ao amor romântico. As duas imagens mantêm o desejo em circulação, mas cada uma desenha uma espécie de problema. Uma põe a escolha sob os olhos; a outra faz do encontro uma cena de consciência.
O que se perde quando chamamos o Marselha de “menos ilustrado”
A expressão parece inocente, mas carrega uma escala de valor. Ela sugere que uma carta se realiza plenamente quando consegue mostrar uma história. Só que o Marselha não é uma narrativa inacabada à espera de personagens.
Sua força está justamente em não resolver depressa demais o que o leitor vê. Os Menores marselheses exigem uma demora que pode ser muito fértil: observar repetições, assimetrias, excessos, cortes, direções, cores, relações entre uma carta e outra. Não é ausência de imagem; é uma imagem que recusa entregar uma cena pronta.
Já o RWS também não merece ser tratado como atalho para quem “não quer estudar”. As cenas de Pamela Colman Smith tornam a entrada mais imediata para muitas pessoas, mas não eliminam ambiguidades nem substituem repertório. Um personagem com oito copas às costas pode falar de partida, renúncia, busca, cansaço, recusa ou mudança de desejo, conforme a pergunta, a posição na tiragem e o diálogo com as outras cartas.
O leitor do RWS precisa resistir à tentação de tomar a primeira história vista na imagem como se ela fosse a resposta. O leitor do Marselha, por sua vez, precisa aceitar que nem toda carta oferecerá uma narrativa reconhecível nos primeiros segundos. São disciplinas de olhar diferentes.
Escolher um baralho é escolher uma conversa com a imagem
Quem deseja começar a estudar tarô costuma perguntar qual baralho é melhor. A resposta mais honesta talvez seja menos definitiva do que se espera: depende da relação que se quer construir com a imagem.
O Marselha pode atrair quem gosta de padrões, cores, relações numéricas, variações entre edições e sentidos que se formam aos poucos. É um campo especialmente vivo para quem aprecia observar antes de nomear.
O Rider-Waite-Smith pode falar mais diretamente a quem aprende por gestos, personagens, paisagens e atmosferas. Suas cenas ajudam a formular perguntas e tornam visível, com rapidez, uma tensão humana possível. Isso não o torna mais simples em sentido absoluto; apenas oferece outro limiar de entrada.
Uma experiência prática pode esclarecer mais do que uma disputa entre sistemas. Escolha a mesma carta nos dois baralhos e leve a ela uma questão delimitada: aquele gasto que você evita examinar, uma conversa sobre divisão de despesas, a dificuldade de pedir apoio. Antes das palavras-chave, observe o desenho. Em seguida, anote o que foi sua associação. Essa pequena separação ajuda a descobrir como você chegou da imagem à própria vida.
O exercício não prova que uma carta “funciona” melhor, nem transforma a leitura em evidência de previsão. Ele ajuda a perceber uma coisa mais básica: a imagem também educa quem a olha.
Talvez seja por isso que Marselha e Rider-Waite-Smith continuam convivendo sem que um precise substituir o outro. Um pode nos ensinar a suportar a abertura de uma composição; o outro, a escutar a história que uma cena começa a contar. Entre cinco moedas dispostas numa carta e duas pessoas na neve, o tarô muda de voz. E, com ele, muda também a qualidade da nossa atenção.
Referências bibliográficas e documentais
- The Metropolitan Museum of Art. The World in Play — Exhibition Galleries.
- Rebecca Billingham, Ruth Hibbard e Josephine Nardecchia / V&A. A history of tarot cards.
- Bibliothèque nationale de France. Un tarot qui rebat les cartes.
- Pinacoteca di Brera. Il segreto dei segreti. I tarocchi Sola Busca — comunicado da exposição, 2012–2013.
- Antoine Court de Gébelin. Du Jeu des Tarots — Monde primitif, vol. 8, 1781 (transcrição).
- Arthur Edward Waite. The Pictorial Key to the Tarot — Part II.
- Arthur Edward Waite. The Pictorial Key to the Tarot — Part III.


