Do jogo renascentista ao oráculo: a história secreta do Tarô

Uma viagem de mais de 500 anos através de arte, poder, símbolos e reinvenção.

Atualizado em 11 de outubro de 2026
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Cartas alegóricas ilustradas, pigmentos e matriz de impressão em uma oficina inspirada no Renascimento.
Ilustração editorial gerada com IA para a Revista Alma, inspirada na história das cartas e das oficinas de impressão; não é uma reprodução documental de peças históricas.

Antes de se tornar oráculo, o Tarô foi jogo de corte, imagem impressa e linguagem em transformação. Conhecer essa trajetória não desfaz seu mistério: mostra como ele aprendeu a sobreviver a cada época.

Há uma espécie de decepção que acompanha a história documentada do Tarô. Ela começa quando se descobre que as cartas não vieram do Egito Antigo, não guardaram intacta uma doutrina secreta através dos milênios e não chegaram até nós como relíquias de uma sabedoria perdida.

Mas essa decepção dura pouco, se olharmos com atenção.

Porque, no lugar de uma origem remota e nebulosa, aparece outra coisa: objetos pintados para famílias poderosas da Itália renascentista; imagens que circularam entre o jogo, a arte e a imprensa; autores que lhes atribuíram novos sistemas de sentido; uma artista cujas cenas mudaram para sempre a maneira de ler as cartas. O Tarô que conhecemos não caiu pronto de uma antiguidade imaginada. Foi sendo feito — e refeito — por pessoas, oficinas, tradições e leitores.

Talvez você já tenha aberto uma carta querendo uma resposta que não precisasse discutir com ninguém. Uma decisão amorosa, dinheiro curto, a vontade de deixar um trabalho: diante da incerteza, uma origem muito antiga pode soar como garantia. A história do Tarô toca justamente esse desejo. O que esperamos que as cartas saibam por nós?

Antes do oráculo, um jogo de triunfos

Os registros mais antigos conhecidos situam o nascimento do Tarô no norte e no centro da Itália, nas décadas de 1440 e 1450. Veneza, Milão, Florença e Urbino aparecem nesse mapa de circulação reunido por estudos e acervos dedicados às cartas europeias do período.

Alguns dos exemplares preservados estão longe da imagem de um passatempo banal. Os baralhos associados às famílias Visconti e Sforza, por exemplo, foram pintados à mão e pertencem ao universo das cortes milanesas. Ouro, figuras alegóricas, vestimentas elaboradas: eram cartas de jogo, mas também objetos de prestígio e de imaginação visual.

Naquele contexto, falava-se em trionfi — triunfos — e, mais tarde, em tarocchi. A estrutura que reconhecemos no Tarô moderno já começava a se delinear: quatro naipes italianos, cartas numeradas, figuras de corte, uma sequência de triunfos e o Louco. A configuração de 78 cartas se consolidaria historicamente, mas a diversidade estava presente desde cedo. Ordens, imagens e ênfases variavam conforme o lugar e o baralho.

Esse detalhe muda bastante coisa. Ele mostra que não houve, na origem, um código único entregue ao mundo de uma vez. O Tarô nasceu entre convenções compartilhadas e variações concretas. Sua unidade nunca significou imobilidade.

A origem egípcia é uma história posterior

A ligação entre o Tarô e o Egito Antigo continua sedutora. Ela oferece uma linhagem grandiosa, quase intacta, para imagens que de fato parecem carregar mais do que uma função lúdica. Historicamente, porém, não há evidência que conecte a criação do Tarô à civilização egípcia, à Atlântida ou a uma tradição hermética mantida em segredo desde a Antiguidade.

A hipótese egípcia ganhou força no fim do século XVIII. Em 1781, Antoine Court de Gébelin afirmou que as cartas preservariam uma sabedoria egípcia antiga. A ideia teve enorme influência, embora a documentação hoje conhecida sobre a origem do Tarô a contrarie.

Pouco depois, Jean-Baptiste Alliette — conhecido como Etteilla — desenvolveu um sistema divinatório próprio para as cartas. No século XIX, Éliphas Lévi ampliou as relações entre Tarô e cabala. Esses autores pertencem à história moderna do esoterismo; não documentam uma origem egípcia das cartas.

Nada disso precisa ser descartado como se fosse um erro sem valor cultural. A origem egípcia não se sustenta como história documentada; já o esoterismo moderno que se construiu ao redor dela é, ele próprio, parte documentável da história do Tarô. Uma coisa é a proveniência das cartas. Outra é a vida simbólica que elas passaram a ter.

Marselha: quando a imagem pede outro modo de ler

Os padrões hoje reunidos sob o nome Tarô de Marselha circularam em diferentes oficinas francesas. A Bibliothèque nationale de France conserva, por exemplo, um baralho de Jean Noblet produzido em Paris por volta de 1650 e um conjunto marselhês de Philippe Vachier datado de 1639. O nome designa uma família gráfica, não a invenção isolada de um fabricante nem tudo o que foi impresso na França.

Nas cartas numeradas dos Arcanos Menores marselheses, a diferença salta aos olhos para quem está acostumado ao Rider-Waite-Smith. Em vez de pequenas cenas com personagens, surgem copas, espadas, paus e ouros distribuídos em ritmos, espelhamentos e composições. Duas taças, cinco moedas, sete lâminas: a carta não entrega uma situação pronta; oferece uma estrutura visual. As figuras da corte pertencem a outra parte dos Menores e continuam trazendo personagens.

Isso não quer dizer que ela seja vazia ou menos expressiva. Exige, porém, outro tipo de atenção. Número, naipe, simetria, direção dos elementos, flores, linhas e convenções da tradição passam a pesar mais na leitura. A imagem não narra antes de ser olhada; ela pede que se perceba como foi organizada.

Pense numa pergunta sobre dinheiro diante de cinco moedas desenhadas. O olhar pode procurar o que falta, mas também reparar no que se repete, no espaço ocupado, na relação entre as partes. A carta ainda não contou uma história de perda. Quem a consulta é que chega com uma preocupação. Esse encontro entre desenho e pergunta importa: permite perceber o que trouxemos para a mesa antes de chamar de mensagem tudo o que vimos.

Duas cartas ilustradas: cinco moedas em composição geométrica e duas figuras na neve diante de uma janela iluminada.
Ilustração editorial gerada com IA: comparação autoral entre uma composição por símbolos e uma cena narrativa. Não é reprodução de cartas históricas.

1909: a cena entra nos Arcanos Menores

No início do século XX, Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith criaram um baralho publicado em 1909 por William Rider & Son que alteraria profundamente o imaginário do Tarô contemporâneo.

Waite elaborou o programa simbólico do conjunto e orientou de modo mais detalhado a construção dos Arcanos Maiores. Smith realizou a arte das 78 cartas e, segundo o Victoria and Albert Museum, teve maior liberdade criativa na elaboração dos Arcanos Menores. Essa liberdade importa: é ali que o baralho torna visível uma de suas mudanças mais duradouras.

Nas cartas numeradas, Smith criou cenas. Um coração sob três espadas; uma pessoa que se afasta de oito copas; duas figuras que caminham em dificuldade diante de uma janela iluminada; uma vitória carregada em procissão. O leitor já não encontra somente a quantidade e o arranjo dos símbolos: encontra atmosfera, gesto, conflito, passagem de tempo.

Volte à mesma preocupação com dinheiro, agora diante das duas figuras na neve do Cinco de Ouros. A dificuldade ganha corpo. Talvez o leitor pense numa conta atrasada; talvez na vergonha de admitir que precisa de ajuda, mesmo quando ela existe. A cena de Smith oferece um lugar para essa associação. Cabe à leitura distinguir a falta material, que pede providências concretas, da história que começamos a contar sobre nosso valor quando os recursos diminuem.

Convém, ainda assim, evitar a simplificação de chamá-lo de primeiro baralho a figurar os Arcanos Menores. O Sola Busca, baralho italiano completo datado de 1491 e preservado pela Pinacoteca di Brera, já apresentava cartas numeradas com iconografia figurativa incomum. A contribuição de Smith não foi inaugurar do nada essa possibilidade, mas transformá-la em uma linguagem visual de alcance extraordinário.

O próprio nome Rider-Waite-Smith torna visível uma participação que a forma abreviada Rider-Waite deixa de nomear: a de Pamela Colman Smith. Rider identifica a editora; Waite, o autor do programa simbólico. Acrescentar Smith é reconhecer que a força daquele Tarô também está na inteligência visual de quem desenhou suas imagens.

Quando a numeração também conta uma história

Há uma diferença aparentemente pequena, mas reveladora, entre as tradições marselhesa e Rider-Waite-Smith. Em muitos baralhos de Marselha, a Justiça ocupa a posição VIII e a Força, a XI. No baralho de Waite e Smith, a Força aparece como VIII e a Justiça como XI.

Em The Pictorial Key to the Tarot, Waite registra a troca, mas reserva para si as razões da escolha. O manual confirma a alteração; não oferece ali uma explicação detalhada que possamos transformar em certeza sobre sua motivação.

A troca, porém, vale como lembrete material de que os baralhos não são recipientes neutros para significados eternos. A numeração organiza relações; a imagem orienta o olhar; uma alteração de posição pode deslocar toda uma rede de associações para quem lê dentro de determinada tradição.

Não existe motivo para reduzir Marselha e Rider-Waite-Smith a uma disputa sobre qual seria o “verdadeiro” Tarô. Eles oferecem gramáticas distintas. Um preserva, em grande parte dos Arcanos Menores, uma linguagem de composição e relação; o outro tornou a cena narrativa um eixo central. Ambos são históricos. Ambos continuam abertos a usos contemporâneos. E nenhum esgota o que o Tarô pode ser.

Síntese autoral: o Tarô não precisa de uma origem mítica para sustentar seu poder de fascínio. Sua história mostra algo mais raro: imagens capazes de atravessar séculos porque aceitaram ser reinterpretadas.

O que muda quando deixamos o mito de origem para trás

Quando se conhece essa trajetória, o Tarô deixa de parecer uma peça intacta vinda de um passado inalcançável. Ele se torna uma linguagem construída em camadas: jogo renascentista, objeto de luxo, tradição impressa, sistema esotérico, repertório artístico, instrumento de leitura simbólica.

A pessoa que chegou à mesa preocupada com dinheiro continuará tendo contas quando fechar o baralho. Mas talvez tenha percebido que evita uma conversa necessária porque teme ser vista como incapaz. A imagem não resolveu a dívida; ajudou a localizar uma pergunta que a palavra “escassez”, sozinha, deixava escondida. É nessa passagem entre símbolo e experiência que uma leitura pode ganhar consequência.

Talvez o ponto mais bonito esteja justamente aí. As cartas sobreviveram não porque ficaram iguais, mas porque puderam mudar de mãos, de técnicas, de imagens e de perguntas. Entre uma mesa de jogo italiana do século XV e um baralho aberto hoje, há séculos de reinvenção. O Tarô permanece reconhecível — e, ao mesmo tempo, nunca é exatamente o mesmo.

Referências bibliográficas e documentais