Do jogo renascentista às imagens de Pamela Colman Smith, uma viagem pelas duas linguagens visuais que moldaram o tarô moderno — e pelo modo como cada uma convida a olhar, estudar e interpretar as cartas.
O que muda quando uma carta mostra apenas cinco moedas organizadas numa composição e, em outro baralho, apresenta duas pessoas atravessando a neve diante de uma janela iluminada?
A resposta não está em decidir qual imagem é mais bonita, mais profunda ou mais “certa”. Está em perceber que cada uma organiza a atenção de quem lê de maneira diferente. No Tarô de Marselha, sobretudo nos Arcanos Menores numerados, a imagem tende a pedir observação de número, naipe, cor, simetria, direção e relação entre formas. No Rider-Waite-Smith (RWS), as cenas oferecem personagens, gestos, paisagens e atmosferas que conduzem mais imediatamente a uma narrativa.
Essa diferença não faz de um sistema uma versão incompleta do outro. Também não determina um método único de leitura. Ela revela duas gramáticas visuais: uma mais sintética e combinatória; outra mais cênica e narrativa.
Síntese autoral: o Marselha não é um Rider-Waite-Smith “sem ilustrações”, assim como o RWS não é um Marselha “mais completo”. Um condensa relações; o outro encena experiências.
Antes do oráculo: o tarô como jogo de cartas

A história documentada do tarô começa na Itália do século XV, no universo dos jogos de cartas com trunfos. Entre os conjuntos mais antigos preservados estão cartas associadas às famílias Visconti e Sforza, de Milão. Nesse contexto, o tarô não nasceu como um instrumento de adivinhação: era um jogo de prestígio, produzido para círculos aristocráticos e composto por naipes, cartas de corte e trunfos alegóricos.
Ao longo dos séculos, essas imagens circularam, foram copiadas, adaptadas e impressas em diferentes regiões europeias. Entre os séculos XVII e XVIII, fabricantes franceses consolidaram convenções visuais que hoje costumamos reunir sob o nome de Tarô de Marselha.
É importante fazer uma distinção: Tarô de Marselha não designa um único baralho fixo. O nome abrange uma família de cartas, impressões e convenções iconográficas, com variantes associadas a fabricantes como Jacques Viéville, Jean Noblet, Jean Dodal e Nicolas Conver. Marselha tornou-se um centro importante de produção e circulação, mas a tradição não se reduz à cidade nem a um único modelo.
Nos Arcanos Menores dessa família, a convenção predominante é a composição de símbolos do naipe: espadas, copas, bastões e moedas — ou ouros — repetidos segundo o número da carta. Um Sete de Espadas apresenta sete espadas; um Cinco de Ouros, cinco moedas. Há ornamentos, cruzamentos, ritmos e, em muitas cartas, elementos vegetais, mas não uma situação humana inteiramente encenada.
Essa característica muda o modo de se aproximar da imagem. A carta não oferece de saída um personagem em sofrimento, uma despedida ou uma celebração. Ela pede que a pessoa que lê construa relações entre seus elementos.
Do jogo à tradição esotérica
A partir do fim do século XVIII, o tarô começou a receber novas camadas de interpretação na Europa. Antoine Court de Gébelin defendeu, em 1781, uma origem egípcia para as cartas. A hipótese não é aceita pela historiografia atual: não há documentação que sustente a ideia de que o tarô tenha sido um livro sagrado egípcio preservado sob a forma de jogo.
Mas uma hipótese sem base histórica pode, ainda assim, produzir efeitos culturais reais. A proposta de Court de Gébelin ajudou a deslocar o interesse de certos leitores: o tarô passou a ser visto não apenas como jogo, mas como possível repositório de saberes ocultos. Pouco depois, Etteilla desenvolveu sistemas divinatórios e publicou baralhos reformulados para esse uso.
Durante o século XIX, autores e correntes esotéricas passaram a relacionar o tarô a astrologia, numerologia, cabala cristã e hermética, alquimia e magia cerimonial. Essas relações pertencem à história das interpretações esotéricas do tarô; não devem ser confundidas com a origem histórica comprovada das cartas.
Essa separação não enfraquece o tema. Pelo contrário: permite ver que o tarô possui, ao menos, duas histórias entrelaçadas — a de um objeto lúdico e impresso, e a das leituras simbólicas que comunidades, escolas e praticantes construíram sobre ele.
Waite, Smith e uma nova linguagem visual
No início do século XX, Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith criaram o baralho hoje conhecido como Rider-Waite-Smith. Publicado em Londres pela William Rider & Son em 1909, o conjunto reuniu um programa simbólico ligado ao esoterismo britânico de seu tempo e uma elaboração visual decisiva de Smith.
Waite e Smith participavam do ambiente da Hermetic Order of the Golden Dawn, ordem fundada em Londres no fim do século XIX e dedicada ao estudo de tradições ocultistas e à prática de magia cerimonial. O contexto ajuda a compreender por que o RWS apresenta referências religiosas, herméticas e astrológicas em diversas cartas. Mas ele não explica tudo: a força duradoura do baralho também está na linguagem pictórica construída por Pamela Colman Smith.
A documentação disponível e a bibliografia especializada indicam que Waite teve participação determinante no programa simbólico do conjunto, especialmente na concepção dos Arcanos Maiores. Materiais curatoriais do Victoria and Albert Museum descrevem uma maior margem de criação de Smith nos Arcanos Menores. Ainda assim, o alcance preciso das instruções dadas a ela carta por carta é uma questão que deve ser atribuída com cuidado às fontes consultadas, e não convertida em uma certeza biográfica absoluta.
O que as imagens permitem afirmar é mais direto: Smith criou, nos Menores, uma linguagem de cenas, corpos, objetos e atmosferas que se tornou central para a recepção moderna do tarô.
Síntese autoral: no RWS, Pamela Colman Smith não apenas ilustra conceitos. Ela transforma a leitura em encontro com uma cena: alguém parte, espera, celebra, perde, enfrenta, observa ou deseja.
O que o RWS preserva — e o que transforma
O Rider-Waite-Smith não surgiu do nada. Ele dialoga com tradições europeias anteriores de tarô, inclusive com famílias iconográficas hoje chamadas de Marselha. Preserva a divisão em quatro naipes, grande parte da sequência dos Arcanos Maiores e diversas figuras alegóricas reconhecíveis: O Louco, O Mago, A Imperatriz, O Imperador, A Roda da Fortuna, A Morte, O Diabo, A Estrela, A Lua, O Sol, O Julgamento e O Mundo.
Ao mesmo tempo, altera nomes, ênfases e composições. La Papesse torna-se The High Priestess; Le Bateleur, The Magician; Le Pape, The Hierophant. A Justiça e a Força trocam de posição numérica em relação à ordenação comum em muitos Marselhas: no RWS, a Força é VIII e a Justiça, XI. Essa mudança se relaciona às correspondências astrológicas adotadas no ambiente da Golden Dawn.
A transformação mais visível, porém, está nos 56 Arcanos Menores. Em vez de apresentar apenas arranjos dos emblemas dos naipes, o RWS dá a cada carta numerada uma cena figurativa. Um coração é atravessado por espadas; uma pessoa se afasta de copas deixadas para trás; duas figuras caminham na neve; uma família celebra sob dez ouros.
Isso não significa que o RWS tenha sido o primeiro tarô a imaginar Menores figurativos. O Tarô Sola Busca, produzido na Itália no fim do século XV, já possuía cartas numeradas com figuras e cenas. Esse antecedente histórico impede que a inovação de Smith seja tratada como criação sem precedentes.
Há estudos e comparações iconográficas que aproximam imagens do Sola Busca e do RWS, sobretudo no caso do Três de Espadas. Contudo, uma influência direta do Sola Busca sobre Pamela Colman Smith exige evidência documental específica: por exemplo, provas de que ela ou Waite tiveram acesso ao baralho, a reproduções ou a estudos pertinentes. Sem essa documentação, é mais rigoroso falar em antecedente histórico e possível campo de comparação, não em transmissão comprovada.
Da composição à cena: duas portas de leitura
A diferença entre Marselha e RWS aparece com força nos Arcanos Menores, mas também atravessa os Maiores. Ela não define uma regra rígida — há leitores de Marselha que narram e leitores de RWS que trabalham intensamente com números e correspondências —, mas cria tendências de atenção.
No Marselha, uma leitura pode começar pela estrutura: quantos elementos aparecem? Como se organizam? Eles se cruzam, se equilibram, se separam? Que papel o naipe assume em determinado método de estudo? O sentido emerge da relação entre cartas e da observação de seus ritmos formais.
No RWS, a leitura pode partir da cena: quem está ali? O que parece estar acontecendo? Que gesto, cor, clima ou tensão se apresenta? A imagem oferece mais rapidamente uma situação possível — embora isso não elimine a necessidade de estudo, contexto e método.
Exemplo: o Cinco de Ouros
Imagine uma pergunta: “O que preciso compreender sobre este momento de insegurança material ou emocional?”
Em versões marselhesas, o Cinco de Ouros apresenta cinco moedas organizadas em uma composição. Não há personagens em dificuldade, uma paisagem de inverno ou um abrigo visível. A leitura pode começar pelo número cinco, pelo naipe de Ouros e pelo desenho: há dispersão, eixo, interrupção, excesso, vínculo ou isolamento entre os elementos? Em métodos contemporâneos, Ouros podem ser associados a matéria, recursos, trabalho, corpo ou concretude; o cinco pode ser lido como tensão ou deslocamento. Essas associações pertencem a tradições interpretativas, não a um significado universal comprovado da carta.
No RWS, duas pessoas caminham sob a neve diante de uma janela iluminada. A imagem traz de imediato frio, vulnerabilidade, deslocamento, convivência com a falta e a possibilidade de um abrigo que talvez ainda não tenha sido alcançado. Em uma leitura, pode evocar dificuldade material, sensação de exclusão, apoio mútuo em meio a uma crise ou ajuda não percebida.
As duas cartas não obrigam a conclusões opostas. Mas começam em pontos diferentes.
Síntese autoral: diante do Cinco de Ouros, o Marselha pode perguntar como a matéria se organiza — ou se desorganiza — em uma situação. O RWS faz sentir uma experiência possível dessa desorganização. Um pede composição; o outro põe a cena em movimento.
Exemplo: Os Enamorados
Nos Marselhas, L’Amoureux frequentemente mostra um jovem entre duas figuras, sob a presença de um Cupido. As variações entre edições importam, mas a composição costuma abrir perguntas sobre escolha, desejo, triangulação, valores em conflito e posicionamento.
No RWS, The Lovers apresenta Adão e Eva diante de árvores simbólicas, sob a figura do anjo Rafael. A cena desloca a imaginação para vínculo, desejo, consciência, conhecimento, responsabilidade e relação com o outro.
Em ambos os casos, o amor pode estar em jogo. Mas seria limitado reduzir qualquer uma das cartas a “amor romântico”. O Marselha pode tornar mais visível a encruzilhada de uma escolha; o RWS pode acentuar a dimensão do encontro e de suas consequências. A carta não entrega uma sentença: oferece matéria para uma pergunta.
Marselha ou Rider-Waite-Smith: por onde começar?
A pergunta “qual é melhor para mim?” não precisa terminar numa disputa entre tradição e acessibilidade. Talvez a pergunta mais fértil seja: qual linguagem visual favorece o modo como quero estudar e ler neste momento?
Você talvez se aproxime do Marselha se gosta de perceber padrões, repetições, cores, direções e relações entre número e naipe; se se sente curiosa diante de uma imagem que não entrega uma narrativa pronta; se deseja construir sentido gradualmente, em diálogo com as cartas e com um método de estudo.
Você talvez se aproxime do Rider-Waite-Smith se aprende melhor por personagens, gestos, climas e situações; se uma cena ajuda a formular perguntas antes de dominar correspondências simbólicas; se deseja uma entrada mais narrativa para o estudo do tarô moderno.
E é possível se reconhecer nos dois. Uma pessoa pode recorrer ao RWS quando quer perceber a dimensão afetiva e imagética de um tema, e ao Marselha quando deseja desacelerar a interpretação e observar relações formais. Estudar um não exige abandonar o outro.
Também vale desfazer duas expectativas comuns. O Marselha não exige um “dom” especial e não é, por definição, inacessível a iniciantes. O RWS não dispensa estudo nem contém significados fechados por apresentar cenas mais explícitas. Em ambos, a leitura depende de repertório, prática, método, contexto e responsabilidade diante da pergunta.
Um pequeno exercício de aproximação
Em vez de escolher um baralho apenas pela fama, pela estética ou pela promessa de facilidade, experimente observar a mesma carta nos dois sistemas.
- Escolha uma carta que exista nos dois baralhos.
- Olhe para cada imagem durante alguns minutos antes de consultar qualquer livro de significados.
- Anote o que você vê: cores, objetos, direções, personagens, vazios, repetições, tensões e movimentos.
- Pergunte: qual imagem me faz formular perguntas mais vivas? Qual delas desperta em mim vontade de continuar estudando?
O exercício não serve para provar que uma carta “funciona” melhor do que outra, nem para validar previsões como fatos. Ele propõe uma relação mais atenta com as imagens e com os modos de leitura que elas possibilitam.
Síntese autoral: escolher um baralho não é escolher qual deles contém a verdade do tarô. É reconhecer qual linguagem, por agora, ajuda você a olhar com mais clareza — e a sustentar por mais tempo a curiosidade diante de uma imagem.
O Marselha preserva uma arte de condensar. O Rider-Waite-Smith encena uma arte de narrar. Entre um e outro, não há uma escada de evolução: há formas diferentes de fazer do símbolo uma pergunta.
Referências bibliográficas e documentais
Bibliografia e fontes
Fontes primárias
- WAITE, Arthur Edward. The Key to the Tarot. London: William Rider & Son, 1909. Dados de edição e exemplar a conferir em catálogo bibliográfico antes da publicação.
- WAITE, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot: Being Fragments of a Secret Tradition under the Veil of Divination. London: William Rider & Son, 1910. A obra circula em exemplares e referências bibliográficas também datados de 1911; a edição efetivamente consultada deve ser identificada na versão final. Edição digital de domínio público: Project Gutenberg.
Estudos especializados
- DUMMETT, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. London: Duckworth, 1980.
- DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. London: Duckworth, 1996. Recomendada para a conferência final da história do tarô esotérico; edição e páginas a registrar após consulta.
- KAPLAN, Stuart R. Encyclopedia of Tarot. Vols. I–IV. Stamford: U.S. Games Systems. Indicar, na edição final, os volumes efetivamente consultados.
Acervos e materiais institucionais
- VICTORIA AND ALBERT MUSEUM. “A history of tarot cards”. Disponível em: vam.ac.uk/articles/tarot-cards. Acesso e formulação exata das passagens sobre Waite e Smith: pendentes de conferência humana antes da publicação.
- VICTORIA AND ALBERT MUSEUM. Registros de coleção sobre o Rider-Waite-Smith e o contexto da Golden Dawn. Disponível em: collections.vam.ac.uk. Localizar a ficha específica e registrar URL, número de objeto e data de acesso antes da publicação.
Fontes auxiliares de localização — não utilizar isoladamente para afirmações históricas centrais
- “Tarô”. Wikipédia, versão em português. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Tarô.
- “Visconti-Sforza Tarot”. Wikipedia, versão em inglês. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Visconti-Sforza_Tarot.
- “Tarot of Marseilles”. Wikipedia, versão em inglês. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Tarot_of_Marseilles.
- JENSEN, K. Frank. “The Early Waite-Smith Tarot Editions”. Referência indicada no material de apuração; URL, edição e dados de consulta pendentes de conferência humana.
Notas de rigor editorial
- A matéria não afirma que Waite e Smith tenham utilizado diretamente um exemplar específico do Tarô de Nicolas Conver.
- O Sola Busca é mencionado como precedente histórico de Arcanos Menores figurativos; uma influência direta sobre Pamela Colman Smith não é afirmada por falta de documentação específica apresentada na apuração.
- A extensão da liberdade criativa de Pamela Colman Smith nos Arcanos Menores deve ser atribuída ao material curatorial efetivamente consultado, evitando a formulação absoluta “carta branca” sem citação documental direta.
- As interpretações comparativas das cartas são sínteses autorais baseadas na observação das imagens e em tradições contemporâneas de leitura; não são apresentadas como significados universais, evidência científica ou reconstrução da intenção original dos fabricantes.

