Psique

O Ventre do Mundo

Uma leitura simbólica e psicanalítica da Imperatriz no tarô Waite-Smith: criação, corpo, desejo, cuidado, abundância e a difícil arte de soltar.

Publicado em 16 de setembro de 2026
Figura adulta com vestido bordado de romãs e coroa de estrelas sentada em poltrona entre trigo, rio, árvores e uma onça-pintada ao entardecer.
Uma imagem simbólica da criação que nutre, contempla e precisa aprender a dar passagem. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

Uma leitura psicanalítica e simbólica da Imperatriz no tarô Waite-Smith — não como ideal de maternidade, mas como imagem daquilo que cria, nutre e, para não sufocar, precisa aprender a soltar.

“A mãe é o primeiro mundo da criança e o último mundo do adulto.”

Síntese autoral: A frase acima não é uma citação de Carl Gustav Jung. Ela abre este ensaio como imagem de uma experiência psíquica: a de que, antes de habitarmos o mundo, habitamos um corpo, um olhar, um ritmo, uma presença.

Há cartas que se explicam. Há outras que se recusam a isso — preferem ser habitadas a serem decifradas. A Imperatriz pertence à segunda espécie.

Sentada em seu trono, entre o trigo maduro, a água corrente e a mata espessa, a Imperatriz do tarô Waite-Smith parece não pedir interpretação. Ela pede presença. Sua imagem é farta: a coroa de estrelas, o cetro, o escudo de Vênus, as romãs, o campo, o rio. Mas sua abundância não é apenas decorativa. Ela produz uma pergunta incômoda para uma cultura que ainda costuma separar espírito e corpo, desejo e criação, prazer e responsabilidade:

você consegue reconhecer o corpo como fonte — e não apenas como instrumento?

Desenhada por Pamela Colman Smith para o baralho concebido com Arthur Edward Waite e publicada em 1909, a carta se distancia de uma ideia de poder fundada na vigilância, na rigidez ou na conquista. A Imperatriz está ao ar livre. Seu trono não se ergue num templo austero, mas se acomoda na paisagem. Não há, diante dela, uma porta iniciática ou uma lei gravada em pedra. Há matéria viva: grãos, água, floresta, tecido, pele, repouso.

Ler essa figura somente pelo vocabulário tradicional da cartomancia seria pouco. Mas também seria impreciso fingir que Jung, Freud ou Lacan escreveram sobre a Imperatriz de Waite-Smith: não escreveram. O que este ensaio propõe é uma leitura autoral em diálogo com conceitos da psicologia analítica e da psicanálise. A carta não ilustra essas teorias; ela entra em atrito com elas, abre associações e devolve perguntas.

A Imperatriz não é um ideal de mulher

Antes de tudo, é preciso retirar uma camada de expectativa que frequentemente pesa sobre a carta. A Imperatriz não deve ser reduzida à mulher fértil, à mãe disponível, à esposa dócil ou à obrigação de cuidar. Sua fecundidade não é um mandato biológico. É uma imagem simbólica da capacidade de gestar formas.

Pode ser uma criança, mas pode ser uma obra, uma ideia, uma casa, uma amizade, uma escolha difícil, uma linguagem para nomear a dor, um desejo que ainda não encontrou mundo. Pode ser também a habilidade de sustentar um processo sem exigir que ele floresça antes do tempo.

Síntese autoral: A Imperatriz não pergunta apenas “o que você quer criar?”. Ela pergunta: “o que, em você, precisa de tempo, alimento e proteção para existir sem ser arrancado do ventre cedo demais?”

Essa é uma carta da criação, mas não da produtividade compulsória. O trigo que a cerca não nasce por pressão. Ele exige estação, solo, água, espera. Num tempo em que até o descanso é frequentemente cobrado como desempenho, a postura relaxada da Imperatriz se torna quase subversiva. Ela sugere que nem toda potência precisa se provar imediatamente.

Mas a mesma imagem exige cuidado: acolher não é possuir. Nutrir não é manter dependente. Criar não é controlar o destino do que foi criado.

A Grande Mãe: abrigo e excesso

Na psicologia analítica, a imagem materna ultrapassa a biografia da mãe concreta. Em seus estudos sobre arquétipos, Jung tratou a mãe como uma figura que pode surgir em sonhos, mitos, religiões e fantasias sob formas muito diversas: terra, fonte, floresta, deusa, caverna, igreja, túmulo, mar. Não se trata de afirmar que todas essas imagens tenham um único significado fixo, mas de reconhecer uma constelação simbólica ligada à origem, ao acolhimento, à nutrição e à transformação.

Erich Neumann aprofundou essa ambivalência ao estudar a Grande Mãe. Nessa perspectiva, o materno arquetípico não é somente protetor. Ele também pode reter, absorver, sufocar. A força que acolhe a vida é, igualmente, a terra à qual tudo retorna.

A Imperatriz, tão frequentemente tratada como uma carta exclusivamente luminosa, ganha densidade quando sua sombra é reconhecida. A generosidade pode se converter em invasão. O cuidado pode virar vigilância. A disponibilidade pode se tornar uma forma delicada — e socialmente elogiada — de controle.

Quem nunca confundiu amor com indispensabilidade? Quem nunca se sentiu ameaçado quando aquilo que ajudou a nascer desejou caminhar sozinho?

Síntese autoral: A sombra da Imperatriz não é a maldade. É o excesso de presença. É o colo que, por medo do vazio, deixa de ser passagem e vira morada obrigatória.

Essa tensão vale para mães e filhos, mas não se encerra aí. Atravessa relações amorosas, processos criativos, lideranças, amizades e até a relação de alguém com sua própria obra. Há pessoas que não conseguem publicar, entregar, encerrar ou compartilhar o que criaram porque, no fundo, ainda tentam manter tudo no interior de si. Como se soltar a criação fosse perder uma parte do próprio corpo.

A Imperatriz lembra que gerar é também aceitar a separação.

Trigo, água e romãs: a matéria que pensa

Rio estreito entre vegetação densa e campo de trigo dourado ao pôr do sol.
Entre o trigo e a água corrente, a paisagem evoca os ciclos de nutrição, amadurecimento e passagem. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.
Romã aberta com sementes vermelhas, espigas de trigo e água sobre tecido vinho.
A romã condensa fertilidade, segredo, passagem e transformação. — Imagem gerada por IA para a Revista Alma.

No Waite-Smith, o campo de trigo aos pés da Imperatriz costuma ser associado à fertilidade, à colheita e à abundância. Mas abundância não é sinônimo de consumo sem fim. O trigo carrega o ciclo inteiro: plantio, espera, amadurecimento, corte, alimento, nova semeadura. O que nutre também se transforma. O que floresce também termina.

Atrás da figura, a água que desce e se prolonga na paisagem acrescenta movimento à sua aparente serenidade. A Imperatriz não é uma estátua de plenitude imóvel. Ela está sentada, mas o mundo atrás dela corre. Algo se acumula, transborda, passa adiante.

Numa aproximação junguiana, a natureza ao redor da carta pode ser lida como mais do que cenário: como uma exteriorização da vida psíquica. Não porque uma floresta ou um rio tenham um único código universal a ser decifrado, mas porque a imaginação humana volta repetidamente a essas formas para falar do que cresce, escapa ao controle e se transforma.

As romãs bordadas em seu vestido abrem outra camada. A fruta possui uma longa história simbólica no Mediterrâneo antigo, frequentemente ligada à fertilidade, à morte e ao ciclo sazonal de Perséfone. Ainda assim, seria simplista tratá-la como um dicionário pronto. O símbolo não é uma senha que se resolve; é uma condensação que continua produzindo sentido.

A romã guarda muitas sementes sob uma casca. Ela é exterior e interior, doçura e ruptura, alimento e mistério. Aproximá-la do corpo, do desejo e da sexualidade é possível; reduzi-la a uma anatomia, porém, empobreceria sua força.

Síntese autoral: A Imperatriz veste romãs porque há conhecimentos que não se obtêm pela distância. Eles exigem experiência: abrir, tocar, provar, aceitar que algo manche as mãos.

Talvez seja isso que tanto desconcerta na carta: ela devolve dignidade ao que a cultura aprendeu a considerar secundário ou vergonhoso — a dependência inicial, a carne, os ritmos do corpo, o prazer, o cansaço, a necessidade de ser cuidado.

Vênus e a dignidade do desejo

O escudo com o símbolo de Vênus declara uma esfera de domínio: atração, vínculo, beleza, sensualidade, valor. Não se trata, necessariamente, de romance. Vênus pode ser lida como o princípio que torna algo desejável, precioso, digno de atenção.

A psicanálise freudiana oferece aqui uma provocação útil. Freud insistiu que a vida psíquica não é governada apenas pela razão e que o desejo encontra vias indiretas: fantasia, arte, sonho, sintoma, idealização. A sublimação, em seu vocabulário, nomeia uma das possibilidades de transformação das pulsões em produções socialmente valorizadas, como a criação artística e intelectual.

Essa aproximação não exige concluir que toda beleza seja uma máscara de um desejo infantil, nem que toda criação seja compensação. Exige algo mais produtivo: reconhecer que a cultura não paira acima do corpo. Ela é atravessada por ele.

A Imperatriz devolve essa continuidade. Ela recusa a fantasia de uma criação pura, inteiramente descolada de fome, prazer, toque, perda, desejo de reconhecimento. Ao mesmo tempo, não transforma a matéria em condenação. Seu erotismo não é culpa: é vitalidade.

Mas há uma diferença decisiva entre honrar o desejo e exigir que ele seja satisfeito por outra pessoa. A carta não oferece uma promessa de completude. Ela oferece uma imagem de abundância — e imagens de abundância podem despertar tanto gratidão quanto voracidade.

A plenitude que não elimina a falta

É tentador olhar para a Imperatriz e desejar regressar a ela: ao campo fértil, ao corpo que acolhe, ao mundo antes das exigências, das escolhas e das separações. Há, nessa vontade, algo profundamente humano.

Em O mal-estar na civilização, Freud comenta o chamado “sentimento oceânico”, expressão que atribui a Romain Rolland: uma sensação de vínculo sem limites com o todo. Freud não a toma simplesmente como evidência de uma verdade espiritual ou de um retorno literal ao útero; ele discute a possibilidade de que certos sentimentos de ausência de fronteiras tenham raízes em formas muito precoces de experiência do eu.

A associação com a Imperatriz, portanto, é interpretativa: diante de sua paisagem de água, trigo e repouso, podemos imaginar o desejo de uma unidade anterior à cisão. Mas nenhuma carta deveria nos convidar a permanecer para sempre nesse lugar.

Lacan, por sua vez, ajuda a radicalizar a pergunta ao insistir que o desejo humano não se resolve numa posse final. Há falta, deslocamento, linguagem, desencontro. Seus conceitos não devem ser usados como ornamento para declarar que a Imperatriz é “a Coisa” ou uma resposta definitiva ao enigma do feminino. Mas eles permitem uma pergunta fértil: o que buscamos quando pedimos a alguém, a uma obra, a uma relação ou a uma mãe simbólica que nos complete?

A plenitude da Imperatriz pode ser uma imagem necessária. O problema começa quando a tratamos como um direito garantido ou como uma dívida que o mundo nos deve pagar.

O acolhimento amadurecido não promete abolir a falta. Ele oferece recursos para atravessá-la.

O primeiro espelho e a difícil arte de soltar

O “estádio do espelho”, formulado por Lacan, descreve uma identificação da criança com uma imagem unificada de si. Não é uma teoria sobre a mãe como espelho em sentido literal, nem autoriza reduzir todas as relações à cena materna. Ainda assim, em diálogo livre com a carta, a Imperatriz faz pensar no quanto nos tornamos alguém também pelos olhares que nos sustentaram — ou falharam em nos sustentar.

Ser visto não é o mesmo que ser vigiado. Ser cuidado não é o mesmo que ser administrado. Ser amado não é o mesmo que ser necessário para o outro.

A Imperatriz, em sua forma mais inteira, oferece reconhecimento sem aprisionamento. Ela diz: “eu vejo a vida que existe em você”, mas não exige que essa vida permaneça para sempre sob seu domínio.

Essa talvez seja a diferença entre nutrir e devorar.

E talvez seja por isso que a carta não seja uma imagem passiva de maternidade idealizada, mas uma figura de autoridade complexa. Ela segura o cetro. Seu poder existe. Só que não se exerce pelo corte, pela força ou pela ameaça. Ele se exerce pela capacidade de sustentar a vida sem confundi-la consigo mesma.

Síntese autoral: Há uma maturidade própria da Imperatriz: aprender a oferecer abrigo sem transformar o abrigo em destino.

O que a Imperatriz recusa em nós

A Imperatriz recusa a divisão confortável entre criar e procriar, entre matéria e espírito, entre pensamento e carne. Ela também recusa uma romantização fácil do cuidado. Nem toda entrega é amor. Nem toda generosidade é livre. Nem toda abundância é saúde.

Sua pergunta não é apenas “o que você deseja gerar?”. É também:

  • O que você continua carregando por medo de dar forma?
  • Que desejo você chama de imprudência porque teme a força que ele tem?
  • Em que relação seu cuidado se tornou uma forma de não deixar o outro partir?
  • O que você criou e ainda não consegue entregar ao mundo?
  • Quem cuida de quem sempre cuida?

A Imperatriz não responde. Ela permanece sentada entre o trigo e a água, com a paciência de quem conhece os ritmos que não obedecem à urgência do ego.

Ela não manda produzir. Não promete completude. Não absolve ninguém da dor de se separar.

Mas oferece uma imagem radical: a de que há inteligência na matéria, linguagem no corpo e dignidade no desejo. E que criar não é dominar aquilo que nasce de nós.

Criar é dar passagem.

Referências bibliográficas e documentais

Referências e materiais de apoio

  • FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Edição em inglês de domínio público disponível no Project Gutenberg. Para a edição brasileira citada no material de origem: São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Pendência editorial: conferir volume e tradução adotados na versão final publicada.

  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Texto em inglês de domínio público disponível no Project Gutenberg. A expressão “sentimento oceânico” aparece na discussão inicial do ensaio, em diálogo com Romain Rolland. Pendência editorial: conferir a paginação da edição brasileira escolhida.

  • JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes. Obra originalmente composta por textos de diferentes datas, reunidos no volume 9/1 das Obras Completas. Pendência editorial: confirmar ano e edição brasileira efetivamente consultados.

  • LACAN, Jacques. “O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica” (1949). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. Pendência editorial: conferir tradutor e edição usados.

  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959–1960). Rio de Janeiro: Zahar, 2008. A aproximação entre a Imperatriz e conceitos lacanianos neste artigo é uma interpretação autoral, não uma leitura feita por Lacan da carta.

  • NEUMANN, Erich. A Grande Mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. São Paulo: Cultrix. Pendência editorial: confirmar ano, subtítulo e edição brasileira disponíveis para citação final.

  • NICHOLS, Sallie. Jung and Tarot: An Archetypal Journey. York Beach: Samuel Weiser, 1980. A obra é uma leitura junguiana posterior e não um texto de Jung sobre o tarô.

  • SMITH, Pamela Colman; WAITE, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1910. Texto digital histórico disponível em Sacred Texts Archive. A carta da Imperatriz pertence ao baralho Rider-Waite-Smith, publicado inicialmente em 1909, com ilustrações de Pamela Colman Smith.

  • JODOROWSKY, Alejandro; COSTA, Marianne. A via do tarô. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

  • POLLACK, Rachel. Setenta e oito graus de sabedoria. São Paulo: Pensamento. Pendência editorial: confirmar edição e ano utilizados.

Nota de método

Este artigo distingue a iconografia documentada do tarô Waite-Smith das associações interpretativas propostas pela autora. Jung, Freud, Lacan e Neumann são mobilizados como interlocutores teóricos; não se atribui a eles uma interpretação direta da Imperatriz de Pamela Colman Smith.