O Tarô não nasceu envolto em papiros sagrados do Egito Antigo, nem foi preservado durante milênios por sacerdotes de uma tradição secreta.
A história que conseguimos documentar começa na Europa renascentista, entre cartas de jogar, famílias aristocráticas e algumas das mais sofisticadas oficinas artísticas da Itália do século XV.
E desmistificar essa origem não diminui o Tarô.
Pelo contrário.
Talvez sua história real seja ainda mais fascinante: um jogo criado há mais de cinco séculos atravessou mudanças culturais profundas, foi reinterpretado por ocultistas, artistas e estudiosos e acabou se transformando em uma das linguagens simbólicas mais reconhecidas do mundo contemporâneo.
🏛️ O NASCIMENTO: ITÁLIA, SÉCULO XV
As primeiras referências documentadas ao Tarô aparecem nas décadas de 1440 e 1450, sobretudo no norte e centro da Itália.
Entre os exemplares que sobreviveram estão os magníficos baralhos associados às famílias Visconti e Sforza, produzidos para a aristocracia milanesa e ricamente pintados à mão.
Naquele momento, porém, estamos diante de cartas destinadas ao jogo.
O Tarô integrava a família dos jogos de vazas com trunfos — aquilo que os italianos chamaram inicialmente de trionfi e, posteriormente, de tarocchi.
Sua estrutura já apresentava os elementos fundamentais que reconhecemos hoje:
- 56 cartas distribuídas entre quatro naipes — Copas, Espadas, Bastões/Paus e Moedas/Ouros;
- 21 cartas de triunfo;
- o Louco, que possuía função particular no jogo.
Os 21 triunfos mais o Louco seriam posteriormente agrupados naquilo que hoje chamamos de 22 Arcanos Maiores.
Figuras familiares ao Tarô contemporâneo já estavam presentes: a Papisa, o Imperador, a Roda da Fortuna, a Morte, o Louco e outras imagens alegóricas.
O ponto histórico fundamental é este:
o Tarô não nasceu originalmente como sistema divinatório.
Seu uso para cartomancia começou a ser sistematizado séculos depois, sobretudo a partir do final do século XVIII, enquanto sua associação mais ampla com o ocultismo ganhou força no século XIX.
📌 E O EGITO? O MITO QUE SE TORNOU TRADIÇÃO
Durante muito tempo circulou a ideia de que o Tarô seria um fragmento sobrevivente de um antigo livro de sabedoria egípcia.
É uma história fascinante.
Mas não existe evidência histórica conhecida que demonstre que o Tarô tenha surgido no Egito Antigo, na Atlântida ou em uma escola iniciática da Antiguidade.
A associação egípcia ganhou projeção na Europa do século XVIII.
Em 1781, Antoine Court de Gébelin defendeu que as cartas preservariam conhecimentos provenientes do antigo Egito. A proposta exerceu enorme influência sobre interpretações esotéricas posteriores, apesar de não possuir sustentação histórica para a origem do baralho.
Aqui encontramos uma distinção importante para compreender toda a história do Tarô:
uma tradição pode ser culturalmente poderosa sem ser historicamente comprovada.
A origem egípcia pertence à história do Tarô ocultista.
Não à origem documentada das cartas renascentistas.
⚜️ TARÔ DE MARSELHA: A CONSOLIDAÇÃO DE UMA TRADIÇÃO VISUAL
Com a expansão das cartas pela Europa, diferentes oficinas passaram a imprimir baralhos por meio de matrizes gravadas, permitindo uma produção muito maior que a dos luxuosos exemplares pintados à mão.
Nos séculos XVII e XVIII, certos padrões gráficos se consolidaram na França e na Suíça.
O nome Tarot de Marseille — Tarô de Marselha passou posteriormente a designar uma família iconográfica que não nasceu propriamente em Marselha, mas da qual a cidade francesa se tornou um importante centro de produção.
Um dos mais antigos exemplares conhecidos compatíveis com o padrão que posteriormente seria chamado de “Tarô de Marselha” é o de Jean Noblet, produzido em Paris na segunda metade do século XVII.
Marselha ganharia particular importância na produção desse tipo de baralho durante o século XVIII.
E Nicolas Conver?
Nicolas Conver tornou-se um dos nomes mais conhecidos associados à tradição marselhesa.
Aqui, porém, existe uma questão histórica interessante.
O famoso modelo relacionado a Conver tradicionalmente apresenta a data 1760, e diversos registros patrimoniais reproduziram essa data ao descrever o baralho.
Entretanto, o registro de autoridade atual da Bibliothèque nationale de France identifica Nicolas Conver como nascido em 1784 e ativo como fabricante de cartas entre 1809 e 1833. A própria BnF observa que o baralho datado de 1760 não pode ser simplesmente atribuído a um ancestral ou homônimo conhecido de Conver.
Por isso, é mais seguro tratar 1760 como uma data historicamente associada ao modelo ou à inscrição preservada, e não afirmar sem ressalvas que Nicolas Conver pessoalmente criou aquele baralho nesse ano.
Essa aparente pequena divergência é um excelente exemplo de como a história do Tarô ainda exige cuidado com fontes, cópias, reedições e atribuições posteriores.
🔢 OS ARCANOS MENORES NO MARSELHA
Uma característica visual marcante do Tarô de Marselha aparece nos chamados Arcanos Menores numerados.
Em vez das cenas narrativas hoje familiares a muitos leitores de Tarot, encontramos principalmente a disposição dos próprios elementos do naipe:
🍷 taças;
⚔️ espadas;
🪙 moedas;
🌿 bastões.
O número, o naipe, a posição dos elementos, a composição gráfica e as tradições interpretativas ganham grande importância.
Em vez de receber uma cena pronta, o leitor precisa construir relações a partir de uma linguagem visual mais abstrata.
Essa característica ajudará a explicar por que o Rider-Waite-Smith, séculos depois, produziria uma mudança tão significativa na experiência de leitura.
🌙 DO ILUMINISMO AO OCULTISMO: QUANDO O TARÔ GANHA UMA NOVA VIDA
No final do século XVIII, o Tarô começou a receber interpretações que ultrapassavam sua função histórica como jogo.
Court de Gébelin ajudou a popularizar a ideia de um conhecimento egípcio secreto preservado nas cartas.
Pouco depois, Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, tornou-se uma figura fundamental na sistematização da cartomancia.
Etteilla foi um dos grandes responsáveis por popularizar a leitura divinatória das cartas e é registrado pelo British Museum como o primeiro tarólogo profissional conhecido na documentação histórica.
Ao longo desse processo, Tarot, cartomancia e especulação esotérica começaram a se aproximar.
No século XIX, essa transformação ganhou nova profundidade.
O ocultista francês Éliphas Lévi inseriu o Tarô em uma síntese muito mais ampla, aproximando as cartas de sistemas como a Cabala, o alfabeto hebraico e outras correspondências esotéricas.
A partir daí, sucessivos ocultistas passaram a relacionar o Tarô com diferentes sistemas:
🔯 Cabala
⭐ Astrologia
⚗️ Alquimia
🔢 Numerologia
🜍 Hermetismo
É importante perceber o que aconteceu.
Essas correspondências não pertenciam necessariamente ao Tarô renascentista original.
Elas foram sendo construídas, reinterpretadas e sistematizadas ao longo da história do ocultismo europeu.
O Tarô começava a deixar de ser apenas um conjunto de cartas.
Transformava-se progressivamente em um sistema simbólico.
✨ 1909–1910: O PARADIGMA RIDER-WAITE-SMITH
No início do século XX surgiu o baralho que mudaria profundamente a linguagem do Tarô moderno.
Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith haviam participado da Hermetic Order of the Golden Dawn, ordem britânica dedicada ao estudo e à prática do ocultismo cerimonial.
Dessa relação nasceu o projeto que se tornaria mundialmente conhecido como Rider-Waite, Waite-Smith ou, cada vez mais, Rider-Waite-Smith — RWS.
Waite concebeu o projeto e forneceu orientações particularmente detalhadas para os Arcanos Maiores.
Mas transformar essas ideias em imagens foi trabalho de Pamela Colman Smith.
Artista, ilustradora e também integrante da Golden Dawn, Smith criou as imagens das 78 cartas.
Sua participação não deve ser reduzida à função de simples executora.
Nos Arcanos Menores, sobretudo, seu espaço criativo foi decisivo.
O projeto apareceu no mercado no período de 1909–1910 pela Rider & Company e se tornaria uma das mais influentes estruturas visuais da história moderna do Tarô.
🎨 A GRANDE TRANSFORMAÇÃO: OS ARCANOS MENORES VIRAM CENAS
No Tarô de Marselha, um Cinco de Copas apresenta essencialmente cinco taças organizadas em uma composição visual.
Pamela Colman Smith adotou outra solução.
Os Arcanos Menores receberam cenas completas.
🗡 Três de Espadas — um coração atravessado por três espadas.
🍷 Oito de Copas — uma figura se afasta das taças deixadas para trás.
🪙 Cinco de Ouros — duas figuras atravessam uma paisagem de dificuldade.
🌾 Seis de Paus — uma figura aparece em uma cena associada à vitória e ao reconhecimento.
Agora, número, naipe, expressão corporal, cenário e narrativa visual trabalhavam juntos.
Essa solução ajudou a tornar a leitura das cartas menores muito mais imagética e intuitiva para gerações posteriores.
Mas há uma correção histórica importante:
Pamela Colman Smith não foi a primeira artista da história do Tarô a colocar cenas figurativas nos naipes.
🃏 SOLA BUSCA: UM ANTECEDENTE DE QUATRO SÉCULOS
O extraordinário Tarô Sola Busca oferece um antecedente muito mais antigo.
Esse baralho completo de 78 cartas foi produzido no final do século XV, e a Pinacoteca di Brera data sua coloração em Veneza em 1491.
Seus 56 naipes menores não apresentam apenas símbolos repetidos.
Eles contêm imagens figurativas elaboradas.
Isso significa que cenas narrativas nos Arcanos Menores já existiam mais de quatro séculos antes do Rider-Waite-Smith.
O que o RWS realizou não foi inventar historicamente a existência de cenas nos naipes.
Sua revolução foi outra:
transformar essa solução visual em uma linguagem extremamente influente para o Tarô moderno.
A partir dele, incontáveis baralhos passaram a utilizar cenas narrativas semelhantes para transmitir seus significados.
⚖️ FORÇA E JUSTIÇA: UMA TROCA QUE AINDA GERA DISCUSSÃO
Existe outra diferença famosa entre o Marselha e o Rider-Waite-Smith.
Em grande parte da tradição marselhesa encontramos:
VIII — Justiça
XI — Força
No sistema de Waite:
VIII — Força
XI — Justiça
É comum encontrar a afirmação de que Waite realizou essa inversão para adequar as cartas a correspondências ocultistas e astrológicas relacionadas à Golden Dawn.
Essa interpretação é plausível dentro da história desses sistemas.
Mas existe uma nuance importante.
No próprio The Pictorial Key to the Tarot, Waite reconhece que realizou a troca e afirma que possuía razões que o satisfaziam — mas deliberadamente não explica essas razões ao leitor.
Portanto, historicamente, é mais rigoroso dizer:
a inversão é frequentemente compreendida à luz das correspondências esotéricas da Golden Dawn, mas Waite não apresentou publicamente no livro uma explicação completa para a mudança.
Isso transforma uma certeza repetida em muitos textos em uma questão histórica mais interessante.
🔗 MARSELHA E RIDER-WAITE-SMITH: DOIS DIALETOS DO TARÔ
Colocar Tarô de Marselha e Rider-Waite-Smith como rivais talvez seja perder uma parte importante da história.
Eles representam maneiras diferentes de organizar e transmitir a linguagem das cartas.
Tarô de Marselha
Tende a exigir maior atenção a:
número → naipe → disposição → tradição simbólica.
Nos Arcanos Menores, a narrativa não está necessariamente entregue por uma cena figurativa.
Rider-Waite-Smith
Acrescenta:
símbolo → personagem → cena → narrativa.
A própria imagem passa a sugerir acontecimentos, relações e movimentos.
Nenhum deles precisa substituir o outro.
Podemos compreendê-los como dois dialetos de uma linguagem simbólica que atravessou séculos de transformação.
Um preserva uma estrutura visual mais próxima das tradições gráficas europeias dos séculos anteriores.
O outro reorganiza essa herança dentro do universo ocultista britânico do início do século XX e lhe acrescenta uma poderosa narrativa visual.
🌟 POR QUE ESSA HISTÓRIA IMPORTA HOJE?
O Tarô que chega às nossas mãos hoje é resultado de sucessivas camadas históricas.
Não existe apenas um Tarô imutável atravessando os séculos.
Existe uma sequência de reinvenções.
Jogo renascentista
→ expansão e impressão das cartas;
→ tradições francesas e suíças;
→ Tarô de Marselha;
→ cartomancia do século XVIII;
→ ocultismo europeu;
→ Éliphas Lévi e outros sistemas de correspondência;
→ Golden Dawn;
→ Waite e Pamela Colman Smith;
→ incontáveis reinterpretações modernas.
Grande parte dos baralhos contemporâneos dialoga, direta ou indiretamente, com alguma dessas tradições.
Conhecer essa história muda a maneira como olhamos para as cartas.
Quando alguém embaralha um Tarô hoje, não está segurando simplesmente uma tradição congelada no tempo.
Está segurando o resultado de mais de cinco séculos de arte, jogo, crença, ocultismo, simbolismo e criação humana.
E talvez seja justamente essa capacidade de transformação que explique parte de sua permanência.
🕯️ Uma leitura autoral
O Tarô não precisa de uma origem mítica para possuir profundidade.
Sua história documentada já é extraordinária.
Ele atravessou cortes renascentistas, oficinas de impressão, salões de cartomancia, movimentos ocultistas e revoluções artísticas.
Foi jogo.
Tornou-se instrumento divinatório.
Transformou-se em sistema simbólico.
E continua sendo reinterpretado.
Talvez o Tarô não seja uma tradição fixa.
Talvez sua própria tradição seja, justamente, a capacidade de se transformar.
Referências bibliográficas e documentais
BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE — BnF. Registros sobre o Tarô de Jean Noblet, Nicolas Conver e baralhos classificados na tradição denominada Tarô de Marselha.
BRITISH MUSEUM. Etteilla — Jean-Baptiste Alliette. Registro biográfico e histórico relacionado à profissionalização da cartomancia e à popularização da divinação pelo Tarô.
METROPOLITAN MUSEUM OF ART. HUSBAND, Tim. Before Fortune-Telling: The History and Structure of Tarot Cards. New York, 2016. Referência documental para a origem renascentista, estrutura dos primeiros baralhos e uso inicial como jogo.
METROPOLITAN MUSEUM OF ART. The Visconti-Sforza Tarot / World in Play. Registros sobre os baralhos Visconti e Visconti-Sforza e a estrutura dos Tarôs do século XV.
PINACOTECA DI BRERA. Il segreto dei segreti: I tarocchi Sola Busca. Documentação sobre o baralho Sola Busca, sua estrutura completa de 78 cartas e sua datação no final do século XV.
VICTORIA AND ALBERT MUSEUM. A History of Tarot Cards. Londres. Referência para a evolução histórica do Tarô, Etteilla, Éliphas Lévi, Golden Dawn e Rider-Waite-Smith.
WAITE, Arthur Edward. The Pictorial Key to the Tarot. London: William Rider, 1911. Fonte primária para as interpretações apresentadas por Waite e para sua declaração sobre a inversão entre Força e Justiça.
DUMMETT, Michael; McLEOD, John. A History of Games Played with the Tarot Pack: The Game of Triumphs. Lewiston: Edwin Mellen Press, 2004. Obra de referência sobre o desenvolvimento histórico dos jogos de Tarô.
DECKER, Ronald; DEPAULIS, Thierry; DUMMETT, Michael. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. London: Duckworth, 1996. Estudo histórico sobre a transformação do Tarô em instrumento de cartomancia e ocultismo.
KAPLAN, Stuart R. The Encyclopedia of Tarot. New York: U.S. Games Systems. Coleção de referência sobre a história e diversidade dos baralhos.
PLACE, Robert M. The Tarot: History, Symbolism, and Divination. New York: Jeremy P. Tarcher/Penguin, 2005. Estudo sobre história, simbolismo e desenvolvimento das tradições do Tarô.